Henry Romero/Reuters
Henry Romero/Reuters

Escassez em La Paz aumenta com bloqueio de partidários de Evo

Já não há combustível em praticamente nenhum posto da capital administrativa da Bolívia - isolada por protestos em estradas - e nos mercados começam a faltar alimentos; população se divide sobre apoio aos manifestantes

Redação, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2019 | 11h34

LA PAZ - Carlos dormiu várias noites em seu táxi na frente de um posto de gasolina para não perder a chegada do caminhão-tanque. Desde que os partidários do ex-presidente Evo Morales bloquearam a rota entre La Paz e uma refinaria, os postos estão sem combustíveis e os comércios desabastecidos.

Para Entender

A luta de poder na Bolívia: Jeanine Áñez no gabinete contra Evo Morales exilado no México

Presidente interina precisa obter reconhecimento, organizar eleições, além de estabilizar e reconstruir o país após semanas de protestos violentos; enquanto isso, ex-mandatário promete manter papel ativo na política boliviana

O diagnóstico de Carlos Lara é claro: "se não há gasolina, não trabalhamos". "Estou aqui desde quinta-feira às 7 horas. Estamos fazendo fila. Eles nos dão esperança de que 'talvez amanhã, talvez amanhã' e esperamos até agora", afirmou este taxista de 72 anos, enquanto matava o tédio conversando com colegas que também esperam.

"Também não podemos ir a uma garagem porque não temos gasolina suficiente nem para isso. Estamos dormindo aqui", diz ele, olhando para aproximadamente vinte carros estacionados em frente ao posto de gasolina.

O panorama é similar em quase todos os postos de combustível de La Paz, capital administrativa da Bolívia e centro nervoso da crise política.

Evo renunciou no dia 10 em razão da pressão popular e da falta de apoio das forças armadas depois de três semanas de manifestações da oposição que o acusavam de fraude nas eleições de 20 de outubro, na qual havia sido reeleito para um quarto mandato.

Desde sua renúncia, seus apoiadores protestaram todos os dias para exigir a saída de Jeanine Áñez, uma senadora de direita que o substituiu ao se proclamar presidente interina na terça-feira passada.

Os confrontos com as forças de segurança foram especialmente fortes perto de Cochabamba, reduto de Evo, onde nove plantadores de coca morreram durante uma manifestação, segundo a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH).

Para se fazerem ouvir, alguns grupos estabeleceram barreiras ao longo da estrada de La Paz até a cidade vizinha de El Alto.

Para Entender

Crise na Bolívia: A ascensão e queda de Evo Morales

Por que a gestão dele teve tanto destaque? Como ele mudou a nação sul-americana? A democracia corre perigo no país? Entenda essas e outras questões

Depois, os bloqueios foram transferidos para a entrada de El Alto, na rodovia que leva a Cochabamba e Santa Cruz, capital econômica da Bolívia. Essa é uma rota vital porque liga La Paz ao centro e leste do país, onde a produção agrícola está concentrada.

Os manifestantes também bloquearam a refinaria de Sanketa, perto de El Alto, que abastece toda a região de La Paz com gasolina e gás.

No domingo, o coronel Rodolfo Montero, novo chefe de polícia boliviana, garantiu à imprensa que o "comandante regional de El Alto abriu um diálogo" com os manifestantes. 

"Precisamos restaurar o serviço de fornecimento de hidrocarbonetos... principalmente para o mercado de La Paz", disse a presidente autodeclarada Jeanine Añez. Mas até a noite de domingo os manifestantes continuavam a bloquear o acesso à refinaria.

Carlos, o taxista, não critica os manifestantes. Ele acredita que o governo de Jeanine "cometeu um erro grave". "Ela poderia ter aliviado a situação sem recorrer ao Exército e à polícia (como fez perto de Cochabamba."

Carne no mercado negro

No mercado Rodríguez, María (nome fictício), vendedora de anis, pimenta e outras especiarias, concorda com Carlos. "Há mortos, eles mataram 9 pessoas em Cochabamba, há jovens que foram feitos prisioneiros, então há bloqueios. É claro que eu entendo (a razão dos manifestantes)", diz ela.

"Não aumentei os preços e não o farei porque existem pessoas que têm mais necessidades do que eu", acrescenta. Mas esse não é o caso em todas as lojas de mercado, segundo Gualberto Albornoz, um dos clientes do local.

"Hoje, com 15 bolivianos (pouco mais de R$ 1,20), comprei 12 bananas. Há uma semana elas me custaram 7 bolivianos. Agora só compro o que é estritamente necessário", diz Albornoz, com uma banana na boca.

Albornoz reclama dos partidários de Evo, que "não entendem que as coisas estão decididas". "Temos um governo e haverá eleições", diz ele, apoiando a iniciativa de Jeanine.

Enquanto os vendedores externos do mercado Rodríguez mantêm sua oferta de vegetais, frutas e especiarias, o setor de carnes é um dos que mais sofre. Todas as bancas estão fechadas há pelo menos quatro dias devido à falta de mercadorias, exceto a de Francisca.

"É difícil conseguir carne no momento. Quase não há, e só conseguimos comprar clandestinamente. Há pessoas dedicadas a isso, que viajam pelo campo para isso. Não quero me envolver com essa questão. Eu só compro carne delas", diz.

O governo enviou 35 toneladas de carne a La Paz a partir do centro do país para tentar aliviar a escassez. E o chefe de gabinete da presidência interina, Xerxes Justinian, prometeu no domingo que nos próximos dias chegarão à cidade 25 toneladas de frango. / AFP

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.