Escassez leva venezuelanos à corrida por papel

Produto de higiene pessoal some das gôndola dos supermercados e governo chavista culpa empresários contrarrevolucionários

OSCAR MEDINA , ESPECIAL PARA O ESTADO / CARACAS, O Estado de S.Paulo

30 Junho 2013 | 02h10

Entre as muitas coisas ruins que podem lhe ocorrer em Caracas é preciso acrescentar mais uma: não haver papel higiênico em seu banheiro. Em nenhuma parte do mundo uma situação semelhante é tão alarmante quanto como há alguns meses se verifica na capital venezuelana.

Isso ocorre em todo o país, para ser mais preciso. Só com muita, mas muita sorte, alguém consegue algo que parece tão simples e normal: sair de casa, parar no supermercado e comprar um rolo de papel higiênico com a maior tranquilidade. A vida cotidiana extraviada.

Por várias semanas houve uma escassez do produto. Durante dias, ele desapareceu por completo e multiplicaram-se as imagens de prateleiras vazias nos supermercados. Acostumados com o fato, pois isso já tinha ocorrido com o leite, o açúcar, o óleo de milho e a farinha - um dos alimentos mais emblemáticos da dieta local -, os venezuelanos fazem o que se acostumaram a fazer. Vão de um lugar para outro, procurar e procurar, até encontrar e comprar a maior quantidade possível do produto, impelidos pela incerteza. Finalmente, o governo de Nicolás Maduro também fez o que sabe fazer bem: culpar os outros.

O ministro do Comércio, Alejandro Fleming, foi o porta-voz eleito para romper o silêncio sobre o assunto. E afirmou que não se tratava de uma queda da produção interna. Que tudo se resumia a uma crise momentânea causada pelos inimigos da revolução, apoiada por uma campanha midiática que levou a população ao máximo da demanda excessiva. E chegou a mostrar algumas cifras que colocavam o consumo normal do país em 125 milhões de rolos de papel higiênico por mês, juntamente com uma estimativa da demanda em excesso de cerca de 40 mil rolos. Por isso, ameaçou, o governo saturaria o mercado para acalmar a ansiedade e derrotar os adversários do socialismo do século 21. "Vamos trazer 50 milhões para demonstrar a esses grupos que não conseguirão nos dobrar."

Isso foi em 14 de maio. Se vieram ou não os 50 milhões de rolos não se sabe, embora a presença de algumas marcas americanas que não costumam circular por aqui sugerissem que algo havia chegado aos mercados. Na filial da rede de supermercados Plaza's, há semanas não chega um rolo de papel higiênico. E isso em Los Palos Grandes, um bairro residencial a leste da cidade localizado na base do Monte Avila, em Caracas, sobre cujos habitantes podemos dizer que são de classe média e média alta.

Não se viu Nicolás Maduro convocando uma das suas cadeias de rádio e TV para comemorar o fato de que, agora sim, poderíamos ir ao banheiro em paz. Ao contrário, na primeira semana de junho o presidente fez um outro anúncio. Compraria regularmente 1,2 milhão de rolos de uma fábrica boliviana chamada Papelera Vinto SRL, notícia que não foi muito bem recebida no país de Evo Morales onde, ao que parece, importam o produto de Peru e Chile.

À margem dessas decisões de Estado que também esbarram na oposição boliviana que vem brigando pelo sagrado direito de ter suficientes opções para escolher com que fazer sua higiene, a verdade em Caracas é esta: o espaço onde normalmente estariam os rolos no supermercado está ocupado hoje por embalagens de areia sanitária para gatos, marca Patas, lenços de papel com primorosos desenhos coloridos, marca Suave, e três versões de toalhas multiuso, marca Practiclin - para lustrar móveis, limpar vidraças e outras para dar brilho em objetos de metal.

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