Escoceses, qual é o problema?

Declarar a independência sem uma moeda própria é uma jogada de alto risco

PAUL KRUGMAN, THE NEW YORK TIMES/O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2014 | 02h03

Na próxima semana, a Escócia realizará um plebiscito para decidir se deixa ou não a Grã-Bretanha. Pesquisas sugerem que o apoio à independência escocesa cresceu nos últimos meses, principalmente em razão de campanhas que ajudaram a reduzir o "fator medo" - a preocupação com os riscos econômicos de o país seguir por conta própria. Neste momento, o resultado parece incerto.

Tenho uma mensagem para os escoceses: tenham medo, muito medo. Os riscos de seguir por conta própria são imensos. Vocês podem achar que a Escócia se transformará em outro Canadá. Contudo, é mais provável que termine como a Espanha - e sem sol.

Comparar a Escócia com o Canadá parece, de início, bastante razoável. Afinal, o Canadá, assim como a Escócia, é uma economia relativamente pequena que faz negócios com um vizinho muito maior. E o exemplo canadense mostra que isso pode funcionar: o país é próspero, economicamente estável (embora me preocupem o crescimento da dívida interna e, ao que parece, uma grande bolha imobiliária) e empreende políticas mais à esquerda que seu vizinho do sul, como o plano de saúde pública, auxílios generosos aos pobres e impostos mais elevados.

O Canadá paga algum preço por sua independência? É muito provável. O índice de produtividade é um quarto menor que o dos Estados Unidos e parte desse desnível pode ser reflexo do tamanho reduzido do mercado canadense (sim, EUA e Canadá têm um acordo de livre-comércio, mas evidências mostram que as fronteiras desencorajam negócios). Ainda assim, vocês podem argumentar que o Canadá está bem.

O Canadá possui sua própria moeda, o que significa que seu governo não fica sem dinheiro e pode injetar liquidez em seus próprios bancos, se necessário, além de outras medidas. Uma Escócia independente não poderia. E isso faz muita diferença.

A Escócia poderia ter sua própria moeda? Talvez, embora a economia do país seja muito mais integrada ao resto da Grã-Bretanha do que a do Canadá em relação aos Estados Unidos. Dessa forma, manter uma moeda diferente seria difícil. Esse ponto, contudo, não é o cerne do problema: o movimento pela independência escocesa é bem claro ao afirmar que pretende continuar com a libra como moeda nacional. Por outro lado, a combinação de independência política e moeda compartilhada é uma receita desastrosa - e, nesse ponto, entra o exemplo da Espanha.

Se a Espanha e outros países que adotaram o euro fizessem parte de um verdadeiro sistema federativo, com instituições e governos compartilhados, a história econômica recente da Espanha seria bastante similar à do Estado americano da Flórida.

As duas economias experimentaram um boom imobiliário entre 2000 e 2007. Também viram o boom se transformar em uma espetacular implosão e decaíram. Como resultado, ambas as economias enfrentaram a queda na receita de impostos e o aumento nos gastos com seguro-desemprego e outras formas de auxílio social.

Os caminhos, contudo, divergiram. No caso da Flórida, a maior parte do ônus fiscal não recaiu sobre o governo local e sim sobre Washington, que continuou a pagar pelo sistema de benefícios sociais e de saúde do Estado, além de arcar com o aumento dos benefícios aos desempregados. Grande parte dos calotes recaiu sobre agências federais - e poupanças estavam protegidas por seguros também federais. Imaginem a cena. De fato, a Flórida recebeu grande auxílio do governo federal em tempos de crise.

A Espanha, por sua vez, arcou com todos os custos da implosão da bolha. O resultado foi uma crise financeira agravada pelo temor de uma crise bancária que o governo espanhol não seria capaz de administrar, em razão do esgotamento dos recursos financeiros. O país contraiu mais empréstimos e foi submetido a medidas restritas de austeridade fiscal. Esse cenário resultou no desemprego de 50% dos jovens e em uma terrível depressão, da qual a Espanha mal começa a se recuperar.

E não foi apenas a Espanha: toda a Europa mediterrânea sofreu um processo similar. Até países da zona do euro com economias saudáveis, como a Finlândia e a Holanda, amargaram quedas profundas e prolongadas em suas economias.

Em resumo, os episódios ocorridos na Europa desde 2009 demonstraram que uma moeda compartilhada sem responsabilidades governamentais igualmente repartidas pode ser uma medida perigosa. No jargão econômico, sistema financeiro e bancário são elementos essenciais para o bom funcionamento de uma moeda.

Uma Escócia independente com a manutenção da libra resultaria em um sistema ainda mais desagregado que o dos países do euro, que pelo menos têm alguma voz na condução do Banco Central Europeu.

Acho intrigante a Escócia cogitar seguir esse caminho depois dos acontecimentos dos últimos anos no âmbito econômico. Se os eleitores escoceses realmente acreditam que é seguro tornar-se um país independente sem moeda própria, eles têm sido muito mal orientados. / TRADUÇÃO DE LIVIA ALMENDARY

É COLUNISTA

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