Andrew Testa/The New York Times
Andrew Testa/The New York Times

Escócia aguarda Brexit para avaliar separatismo

Escoceses estão divididos, mas nacionalistas encaram prejuízos com saída do Reino Unido da UE como chance de ressuscitar ideia de independência

Redação, O Estado de S.Paulo

17 de fevereiro de 2019 | 04h00

EDIMBURGO - Os escoceses odeiam o Brexit. Enquanto Inglaterra e País de Gales votaram pela saída do Reino Unido da União Europeia, mais de 60% da Escócia votou para ficar. Na capital, Edimburgo, três em cada quatro habitantes não querem deixar o bloco. Por isso, a questão que surge no horizonte é se o desastre econômico que se aproxima pode levar a Escócia a um novo plebiscito e se será suficiente para torná-la independente.

O governo comandado pelo Partido Nacional Escocês (SNP) prevê que o Brexit deixará os escoceses em média US$ 3.000 por ano mais pobres, acabará com 80 mil empregos e contaminará o ambiente de negócios por décadas. Por isso, o sentimento generalizado é o de que o Brexit pode ser uma revolução lenta que termine com uma união de mais de 300 anos. A Escócia puxaria a fila. Depois, sairia a Irlanda do Norte – deixando ingleses e galeses no que antes seria o Reino Unido. 

Em muitos aspectos, os nacionalistas escoceses têm um sólido argumento. Em 2014, a independência da Escócia foi derrotada nas urnas. O raciocínio usado por Londres para manter o reino unido foi a rede de segurança da UE. Se os escoceses se tornassem independentes, não seriam mais membros do bloco. 

Dois anos depois, no plebiscito do Brexit, 62% dos escoceses votaram para ficar na UE, mas a ideia do divórcio venceu graças ao apoio de Inglaterra e Gales – o que enfureceu a maioria da população. A Escócia ainda está dividida sobre a identidade nacional e o lugar dos escoceses no mundo. Mas uma saída caótica da UE pode fazer a balança pender para a independência.

Douglas Baird, empresário de Edimburgo, diz que o Brexit é “a coisa mais ridícula que aconteceu ao Reino Unido”. “Recebemos uma pergunta vaga na cédula, que era fácil de entender, mas impossível de compreender os detalhes sutis”, disse. Baird conta que votou para a Escócia ficar no Reino Unido, em 2014, mas agora a independência é uma questão de tempo.

A líder do SNP, a primeira-ministra Nicola Sturgeon, descreve o plano do Brexit, arquitetado pela primeira-ministra britânica, Theresa May, como “totalmente caótico”. “Não havia nada de inevitável no Brexit, que acabou se tornando o caos total”, disse Nicola ao Washington Post. “Isso aconteceu porque aqueles que defendiam o Brexit realmente não explicaram o que o Brexit significava na prática.”

Para ela, o Brexit reforça o argumento da independência escocesa. Nicola e o SNP articulam um novo plebiscito, mas ainda não definiram uma data. “A Escócia está pagando um preço por não ser independente. Estão nos impondo uma política sobre a qual não temos controle, que causará danos reais a nossa economia.”

Michael Keating, professor de política do Centro de Mudança Constitucional, de Edimburgo, diz que os escoceses, por razões históricas e geográficas, veem o Brexit de maneira diferente do inglês. “Estamos acostumados a trabalhar com os ingleses e com os europeus”, afirma.

Segundo ele, o slogan do Brexit – “Retomar o controle” – não pegou na Escócia. “Retomar o controle de quem? Londres? Bruxelas? Nossa soberania já é compartilhada.”

A premie Nicola Sturgeon concorda e lembra que o escocês está mais acostumado com múltiplas identidades. “Somos escoceses, britânicos e europeus. Essa ideia de que você tem de escolher uma em detrimento da outra é algo que não tira o sono de ninguém na Escócia.” 

No entanto, até agora não há indícios de que o Brexit tenha tido impacto sobre a questão separatista e o desafio do SNP ainda é capitalizar a insatisfação dos escoceses. Ian Montagu, pesquisador do instituto ScotCen, analisou 13 pesquisas sobre a independência e chegou à conclusão que 55% preferem que a Escócia fique onde está – o mesmo resultado do plebiscito de 2014. /W. POST

 

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