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Ben Blanchard/Reuters
Ben Blanchard/Reuters

Escolas do Partido Comunista Chinês formam líderes à imagem de Xi

Instituições do partido vêm incutindo na mente da próxima geração de líderes comunistas as ideias de seu homem forte à medida que o país segue numa direção mais autoritária

Chris Buckley and Keith Bradsher / The New York Times, O Estado de S.Paulo

06 de julho de 2021 | 05h00

Num câmpus arborizado a noroeste de Pequim, pontilhado de estátuas de Marx, Mao e outros santos comunistas, o líder chinês Xi Jinping vem treinando seus “leais sucessores”, a próxima geração de dirigentes que irão liderar o ressurgimento do regime de partido único.

O Partido Comunista Chinês comemorou 100 anos de fundação e em grande parte desse tempo as Escolas do Comitê Central do Partido Comunista e academias similares têm sido os “berços vermelhos”. Nessas escolas, os futuros quadros são imersos nas crenças do partido que remontam às suas primeiras décadas como movimento revolucionário. Xi prega que o governo de partido único revigorado é essencial para a ascensão da China, insistindo que as escolas devem formar oficiais que sejam orgulhosa e manifestamente leais a essa causa.

“Nosso partido dependeu da luta para chegar onde estamos hoje e seguramente depende da luta para o sucesso futuro”, afirmou Xi para centenas de jovens oficiais de uma Escola do Comitê Central do Partido que anotaram suas palavras como alunos atentos. “Os perigos e os testes à frente não serão menores do que os do passado”.

Nenhum público parece mais receptivo à mensagem de Xi do que os alunos nas milhares de escolas chinesas dirigidas pelo Partido Comunista Chinês que formam dezenas de milhares de oficiais anualmente. Eles aprendem doutrina política, história do partido, assuntos econômicos e outros, e as ideias de Xi hoje são a base dos seus currículos.

Xi oferece “os princípios políticos que guiam a China contemporânea", afirma Wang Shiquan, professor de uma outra escola de elite do partido, a China Executive Leadership Academy Pudong, em Xangai. A escola tem mais de 120 cursos usando as teorias de Xi, afirmam os dirigentes da academia.

Com Xi assumindo um controle cada vez mais autoritário da China, as escolas do partido seguem na mesma linha. A Escola do Partido Central uma vez tolerou, e até apoiou, estudiosos reformistas que ficarma desapontados com a centralização do poder por Xi, suas políticas de linha dura e abolição dos prazos de mandato. Jovens líderes hoje vêm surgindo das escolas carimbadas com esse espírito belicoso.

Uma dessas alunas em 2019, Hua Chunying, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, refutou desdenhosamente as críticas dos governos ocidentais. “A história de sucesso da China é a história de sucesso do Partido Comunista Chinês”, escreveu num trabalho para sua aula na escola do partido que foi publicado em 2019. Essa história, acrescentou, “é um farol apontando para o brilhante futuro da empreitada socialista.”

O Partido Comunista administra cursos para treinar membros praticamente desde a sua fundação. Gerações de líderes chineses as usaram para criar quadros à sua própria imagem: revolucionários, primeiramente, mais tarde adotando as reformas econômicas e políticas nos anos 80 e com um lustro tecnocrata nas décadas mais recentes.

Mao Tse-tung foi presidente da Escola do Comitê Central do Partido. Xi foi presidente durante cinco anos antes de se tornar o líder nacional no final de 2012. Durante a década de 1980, líderes reformistas como Hu Yaobang, incentivaram a escola a produzir ideias para uma era de abertura e flexibilização política.

Atualmente as escolas oferecem cursos sobre questões práticas da administração de um grande centro urbano, um condado, uma cidade ou uma província: como pôr fim a protestos, ou como selecionar membros para serem promovidos. Uma aula na escola do partido, descrita num estudo recente, lembrava os alunos de, ao visitar áreas atingidas por inundações usarem botas de borracha cobertas de lama como um sinal vívido de que compartilhavam o sofrimento dos moradores.

“As escolas do partido cultivam a cultura do que é ser um membro da elite do partido”, disse John Fitzgerald, pesquisador australiano que está escrevendo um livro sobre a burocracia chinesa. “A escola do partido faz parte do processo de criar uma elite separada com sua própria linguagem, cultura e redes”.

A China Executive Leadership Academy recentemente deixou à mostra seus esforços para oferecer um currículo modernizado: em parte um campo de treinamento político e em parte uma escola de administração.

“Um líder é muito ocupado e vem aqui por uma semana ou duas”, disse Wang, o professor da academia. “Trata-se principalmente de resolver os seus problemas, por exemplo, como ser um prefeito ou um secretário do partido”.

Em um curso, os alunos estudam como solucionar crises como rebeliões e desastres naturais, inundações e deslizamentos de terra. Em outro, aprendem como lidar com entrevistas na mídia e com convidados estrangeiros. A academia convida magnatas e autoridades para darem aulas, segundo diretores das escolas.

“Achamos que as habilidades do boxe têm de ser ensinadas por boxeadores”, afirmou Jiang Junjie, um professor da academia.

Mas para Cai Xa, ex-professora de uma das escolas, Xi comandou uma perigosa erradicação da abertura política, incluindo no famoso câmpus de Pequim onde ela deu aulas no passado.

Sua carreira na Escola do Partido seguiu a transição da China de um período de relativa abertura política para o autoritarismo de Xi. Ela chegou à escola em 1992, quando Deng Xiaoping estava flexibilizando o bloqueio ideológico imposto após a sangrenta repressão de quatro de junho de 1989 dos protestos da Praça Tiananmen. Foi uma mudança prestigiosa para Cai que dava aulas numa escola do partido local numa cidade a leste da China.

Nas duas décadas seguintes alguns acadêmicos da escola defenderam uma liberalização política gradativa, começando dentro do partido para livrá-lo da corrupção e abusos de poder, disse Cai. Estudiosos reformistas no geral mantinham suas ideias dentro de limites aceitáveis para os líderes. A recompensa era que eles podiam defender cuidadosamente a mudança para os funcionários em ascensão.

“O Partido Comunista Chinês na verdade se coloca acima do país, de modo que, se ele não democratiza, o país não avança na direção da democracia”, disse Cai.

Como presidente da Escolas do Comitê Central, Xi censurou os acadêmicos que criticaram o partido. Mas Cai aguardou para ver o que ele faria no poder, esperando que haveria uma reformulação da hierarquia política.

Nove anos depois, vivendo nos Estados Unidos, Cai se tornou uma crítica irrestrita do caminho autoritário seguido pela China. No ano passado ela foi expulsa da escola do partido onde trabalhava e teve sua aposentadoria suspensa.

Mas ela disse que a campanha de adequação de Xi não mudaria o pensamento de todos, mesmo na escola. “Externamente o partido parece unificado, mas por dentro existem sub-correntes turbulentas. Dentro das escolas do partido alguns se voltaram contra as antigas ideias liberais para agradar Xi Jinping; alguns apenas se manifestam o menos possível”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

 

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