Escolas uruguaias fecham em ato contra violência

Em um dos países mais seguros do continente, criminalidade é ponto frágil de governo de Mujica e centro do debate eleitoral

RODRIGO CAVALHEIRO, ENVIADO ESPECIAL / MONTEVIDÉU, O Estado de S.Paulo

29 Novembro 2014 | 02h02

Os temas dominantes da disputa eleitoral uruguaia, educação e insegurança, ganharam mais peso antes da votação de domingo, com uma paralisação de professores que fechou ontem todas as escolas de ensino médio do país. A medida foi tomada após uma briga, na quarta-feira, entre dezenas de estudantes que terminou na agressão contra duas professoras no Liceo 50 do bairro Casabó, um dos mais pobres de Montevidéu.

Há meses, associações de classe denunciam aumento da violência contra os educadores e cobram melhorias no ensino. Pelo menos cinco casos de agressões contra os docentes tiveram repercussão nacional desde abril.

Insegurança e educação foram ao centro da disputa entre o candidato governista Tabaré Vázquez, da Frente Ampla, e o conservador Luis Alberto Lacalle Pou, do Partido Nacional. Os dois se enfrentam amanhã e o ex-presidente, médico oncologista que governou o país entre 2005 e 2010, é o favorito. Segundo pesquisas de três institutos, Tabaré aparece em média 13 pontos à frente do rival nas intenções de voto.

"A segurança tem muitíssimo efeito na opinião pública. Foi sem dúvida o principal ponto de ataque da oposição ao governo de Mujica, que Tabaré teve de defender. Embora os números uruguaios sejam melhores que os de vizinhos, há uma brecha entre a realidade e a percepção pública", sustenta a professora Verónica Filardo, da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade da República.

"No caso da educação, a realidade é que os resultados do Uruguai são muito ruins. Tão ruins que nos colocam abaixo dos da região", completa.

Mesmo que especialistas como Verónica apontem exagero na preocupação dos uruguaios com a segurança, o tema é visto até por eleitores de Mujica como o ponto fraco de seu governo. "A vida melhorou muito com a Frente Ampla. Salário, aposentadoria e outras coisas. Só o que ainda não funciona é a segurança", disse Javier Salazar, de 47 anos, que vendia bandeiras do partido ontem no Cerro Norte, o bairro mais violento de Montevidéu, onde uma pequena cracolândia chama a atenção na Rua Bogotá. "A única coisa que discordo do governo é a lei da maconha. Acho que vai aumentar a insegurança", afirmou Salazar, que vendia cada bandeira azul, vermelha e branca por 150 pesos (R$ 14).

No caso que levou à paralisação nacional nas escolas de ensino médio, uma estudante envolvida na briga foi enviada para uma unidade de reeducação de menores. Isso revoltou os vizinhos e parentes, que ontem prometiam vingança.

"Esses professores verão o que vai acontecer", ameaçou o irmão da menor, Carlos Nuñez, de 21 anos, em frente de casa, em uma rua de chão batido a uma quadra do porta do colégio, onde um cartaz dizia "Liceo 50 em conflito". "Entram com armas e drogas na escola, o que é muito mais grave, mas isso ninguém vê", afirmou a tia da estudante, Yoana Igini, dona de casa.

O ministro do Interior, Eduardo Bonomi, criticou a paralisação dos professores às vésperas da eleição. Na própria escola fechada, o diretor e quatro professoras disseram que estavam proibidos de falar sobre o episódio pelo Conselho Nacional de Professores, mas tentaram desvincular o caso da campanha eleitoral.

Homicídios. O jornal uruguaio El País, que apoia o candidato conservador, publicou ontem que nenhum governo teve tantas mortes registradas desde 1985, quando a democracia foi retomada no país. Segundo a fonte do jornal, o observatório de violência Fundapro, houve 253 homicídios por ano enquanto Mujica esteve à frente da presidência.

De acordo com o último estudo do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime, publicado em 2013, a taxa uruguaia subiu de 6 homicídios por 100 mil habitantes para 8, o que mantém o país entre os mais seguros do continente. O governo atribui a elevação no número de mortes no período a acertos de contas entre narcotraficantes. Chile (3,1), Cuba (4,2) e Argentina (5,5) são os três da América Latina com os melhores indicadores. O Brasil aparece com 25,2 homicídios por 100 mil habitantes.

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