'Escolha traz renovação e mistura entre esquerda e direita'

Para acadêmico, italianos se cansaram da atual 'gerontocracia' no poder e Letta, de 46 anos, mudará essa imagem

Entrevista com

PARIS, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2013 | 02h06

Cientista político italiano, Giovanni Orsina é diretor da Escola de Governo da Universidade Luiss-Guido Carlo, uma das mais prestigiadas de Roma. Para ele, o país vive um momento propício para grandes mudanças políticas e Enrico Letta representa a renovação.

Quem é Enrico Letta?

A reeleição de Giorgio Napolitano como presidente no último final de semana foi a única solução política possível, mas ele é um homem de 87 anos. Há uma grande demanda da opinião pública por uma renovação, porque a percepção é de que a Itália é uma gerontocracia. Se conseguir formar um governo, Enrico Letta vai romper com essa imagem, porque será o mais jovem primeiro-ministro da Itália. Além de representar a renovação, Letta é um expert que foi ministro aos 32 anos e que já tem 14 anos de experiência administrativa. É uma excelente mistura de juventude e experiência.

O senhor diria que Letta é o premiê que romperá o impasse político na Itália?

Letta pertence ao Partido Democrático (PD), mas é da ala mais tradicional e moderada do partido. Em seu eventual governo teremos ministros mais à direita do PD e também ministros do Partido Povo da Liberdade (PDL), de Berlusconi, que o apoiará. Há várias fronteiras sendo cruzadas com a escolha de Letto. Duas delas são a da renovação, mas com experiência, e a mistura entre esquerda e direita. A solução encontrada por Napolitano é brilhante, porque não há muitas pessoas além de Letto na política italiana que possam encarnar tantas mudanças.

Até aqui, o impasse político era causado pela recusa de Pier Luigi Bersani de formar um governo com o PDL e Berlusconi. Agora teremos uma coalizão?

Esse era o grande problema. Berlusconi desde a eleição está fazendo apelos por um grande governo de coalizão nos moldes da Alemanha entre o PD e o PDL. Mas no PD muita gente, como Bersani, resistia muito a essa ideia, porque consideram Berlusconi o demônio.

Que perfil de governo teremos: político ou tecnocrata?

O governo terá de adotar uma postura tecnocrata, terá de ser muito low profile, embora Berlusconi vá tentar ter o maior número de ministros possível. Eu acredito que teremos políticos com características tecnocráticas.

A eventual coalizão do PD e do PDL era o cenário dos sonhos de Beppe Grillo.

Em certo pontos de vista, sim. Mas ele reagiu muito mal à reeleição de Napolitano. Se um governo PD-PDL fizer algo de útil, pode ser muito ruim para Beppe Grillo. Há duas coisas muito importantes para que esse governo seja bem sucedido: patrocinar reformas eleitorais e alterar de certos pontos da Constituição, além de cortar custos excessivos do governo e dos políticos. Se isso acontecer e a economia se recuperar, Grillo estará acabado. Se nada disso acontecer ele pode se tornar a única força de oposição na Itália.

Um governo com a participação de Berlusconi é o melhor para fazer as reformas de que o país precisa?

Creio que eles pensam mais em seus próprios interesses políticos. Minha esperança é de que eles acreditem que seus interesses e os interesses do governo desta vez são os mesmos. Grillo segue popular nas pesquisas de opinião, o que pode levar o governo a fazer as reformas para responder à pressão. Outra pressão será a de Napolitano, que tem uma autoridade moral renovada.

O senhor acredita que um eventual governo Letta vai durar ou deve ser temporário, até novas eleições antecipadas?

Previsões de longo prazo são temerárias na Itália. Se o governo for mesmo formado, talvez dois anos seja uma previsão realista. Mas vai depender do desempenho econômico do país, das pesquisas de opinião e até dos julgamentos de Berlusconi. Se ele for condenado, tudo pode mudar. O certo é que ele não terá a maioria em um futuro governo como teve desde 2008 e durante a gestão de Mario Monti. Ele é um vencedor na atual situação, mas sem o poder que tinha.

O senhor está otimista ou pessimista?

Essa é uma oportunidade maravilhosa para o país, a melhor nos últimos 20 anos. É a oportunidade de superar a dicotomia em torno de Berlusconi.

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