Escolhas difíceis para Maduro

Inflação é tão alta na Venezuela que restam poucas alternativas para o governo chavista

ANDRES , OPPENHEIMER, THE MIAMI HERALD, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2014 | 02h07

O desastroso governo do presidente Nicolás Maduro enfrenta problemas muito mais graves do que se imagina, não em razão dos protestos estudantis que já deixaram 18 mortos, mas pela inflação anual de 56%, a mais alta do mundo , que dentro em breve tornará o país ingovernável.

A maioria dos economistas concorda que nenhum país consegue manter uma inflação de 56% por muitos anos. A história mostra que, quando eles atingem esse patamar inflacionário, ou adotam medidas de austeridade draconianas ou precipitam na hiperinflação, no caos econômico e político.

Em outras palavras, seria quase impossível para Maduro permanecer no poder até o fim do seu mandato, em 2019, sem deter a espiral inflacionária, a escassez de alimentos e impedir um derretimento econômico. As opções disponíveis são as seguintes.

Primeiro, um pacote de austeridade tradicional financiado pelo FMI. Em grande parte parecido com o que fizeram recentemente a Grécia e muitos países da América Latina, Maduro poderia pedir ao FMI que salvasse a Venezuela com empréstimos de emergência e um pacote de medidas de austeridade. Isto exigiria, entre outras coisas, cortes maciços dos gastos públicos, anulação de estatizações, abolição do controle de preços e restauração da independência do Banco Central.

Evidentemente, isto seria exatamente o oposto de tudo o que Maduro e seu mentor, o presidente Hugo Chávez, morto no ano passado, pregaram nos últimos 15 anos. E, caso adotasse as medidas de austeridade, muito provavelmente, Maduro precisaria formar um governo de coalizão ou recorrer a um acordo com a oposição para impedir que os atuais protestos de rua se alastrassem ainda mais e se tornassem mais sangrentos.

Em segundo lugar, a adoção de um pacote de austeridade sem ajuda externa. Maduro poderia aprovar um pacote de medidas que visassem reduzir os gastos em geral, sem a ajuda do FMI. Em grande parte como o México fez recentemente, quando todos os principais partidos concordaram com uma série de reformas econômicas, Maduro poderia convocar a oposição para assinar um plano nacional de salvação econômica.

Mas, muito provavelmente, a oposição não concordaria com essa medida sem a criação de um governo de coalizão que restaurasse a separação dos poderes, criasse um Banco Central independente e convocasse eleições antecipadas.

Uma terceira opção seria a dolarização da economia. Como o Panamá, o Equador e, mais recentemente, o Zimbábue fizeram, Maduro poderia deter a espiral inflacionária mediante a adoção de uma cesta com as principais moedas, o que, na realidade, significa o dólar.

Isto ajudaria a restaurar a confiança na economia do país, mas não só seria embaraçoso para Maduro, que se declara revolucionário anti-imperialista, como resultaria nos mesmos cortes draconianos de gastos públicos exigidos por um pacote do FMI. A medida seria difícil de ser implantada sem um governo de coalizão ou um acordo político com a oposição.

Uma quarta alternativa seria uma ajuda chinesa. Como Cuba fez com a ex-União Soviética, Maduro poderia pedir a ajuda à China, um dos maiores consumidores de petróleo do mundo, em troca do controle virtual do país, transformando-o num satélite chinês.

O problema é que os chineses são prudentes nos negócios e já estão preocupados com mais de US$ 20 bilhões de empréstimos atrasados da Venezuela. No ano passado, Caracas pediu à China um empréstimo de US$ 10 bilhões, mas recebeu apenas a metade e ainda vinculada a condições rigorosas.

"Agora, quando a incerteza política é maior do que no ano passado, a China se sentirá bem menos propensa a salvar a Venezuela", diz Evan Ellis, professor do Centro de Estudos sobre Defesa Regional, em Washington. Quando perguntei se a China não se sentiria tentada a assumir um risco econômico maior em troca do controle da Venezuela, rica em petróleo, ele disse que seria muito improvável, pois exigiria um grau de controle e de supervisão que provocaria a ira dos EUA.

"Toda oportunidade comercial e estratégica que os chineses buscam na América Latina exige que se leve em conta a reação dos EUA", afirmou. "A China não quer que os EUA, seu maior parceiro comercial, se transformem em inimigo."

Na minha opinião, é difícil saber qual das opções Maduro escolherá, mas é evidente que não fazer nada não é uma opção. Rezar para que haja um novo aumento dos preços do petróleo não funcionará, porque nenhum economista sério prevê que isto ocorra em um futuro próximo.

Maduro terá de implementar cortes maciços de subsídios, o que não pode fazer unilateralmente num país dividido sem desencadear protestos ainda maiores. Se a China não ajudar de novo, ele precisará de um acordo com os mesmos líderes da oposição que ele insulta cotidianamente. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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