Escrever sob a sombra das Torres Gêmeas

Autores ainda buscam o tom para descrever tragédia

Adam Kirsch, da Prospect Magazine, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2011 | 00h00

Após a morte de Osama bin Laden, com o 10.º aniversário dos atentados de 11 de setembro de 2001 se aproximando, é tentador afirmar que chegou ao fim a era 11-S.

No entanto, observando a cultura e a política americanas, fica claro que traumas históricos não desaparecem. Na ficção americana, não há sinal de que o trauma foi vencido. Pelo contrário, o enorme número de romancistas que trataram o tema e o sucesso que obtiveram sugerem que a literatura americana ainda busca a maneira certa de compreender os ataques.

Uma das primeiras interpretações foi de que o 11 de Setembro marcou o fim de uma era de irresponsabilidade americana. Os anos 90, com base nessa interpretação, foram um breve período de férias da história, um tempo de diversão e ganância.

A Boa Vida, de Jay McInerney, oferece um tratamento sentimental e de qualidade mediana, transformando o 11 de Setembro na ocasião propícia para um exame de consciência yuppie. Não há como não perceber o sarcasmo quando Luke, milionário de Wall Street, marca o domingo após os ataques encomendando comida para viagem de um lugar chamado Pig Heaven. McInerney não quer que seus personagens sejam expulsos desse céu.

Um dos principais problemas dos romances sobre o tema é que os escritores precisam entender como os ataques, com todo o seu acaso e horror indiscriminado, tornaram absurdos os requisitos mais básicos de uma narrativa: o encadeamento lógico da trama.

Esse ponto fica ressaltado no caso de dois livros curiosamente similares publicados no ano passado: Next (Próximo) de James Hynes e There"s no Road to Everywhere Except Where You Came From (Não há nenhuma estrada para todos os lugares, exceto de onde você veio), de Bryan Charles. Ambos narram a história de um homem comum que acaba no meio de um grande atentado terrorista. Supõe-se que o personagem é o destino, mas a estrutura dos dois livros - o cotidiano repentinamente se tornando, isso depois algumas centenas de páginas, algo indescritível - sugere que a ameaça real do terrorismo é a maneira como ele torna esse destino algo sem sentido.

Há uma grande diferença entre as duas histórias. Next é um romance e culmina numa ataque fictício contra um arranha-céu no Texas. Road é uma autobiografia. Charles realmente estava na torre sul do World Trade Center em 11 de setembro de 2001. Lidos um ao lado do outro, ambos oferecem um exemplo prático da capacidade comparativa da memória e da imaginação de lidar com o 11 de Setembro.

Desde quando Henry James cunhou a frase, os romancistas se orgulham de possuir a "imaginação do desastre". Para muitos escritores americanos, o 11 de Setembro foi a oportunidade de testar essa imaginação, provar que foi corajosa o suficiente para continuar funcionando em situações de horror extremo.

Charles, que também é romancista, sugere que uma experiência genuína do desastre não pode ser imaginada, mesmo no momento em que ele ocorre. Enquanto descia os 70 lances de escada da torre, ele escrevia: "Minha mente desligou. Não comecei a rezar. Não tive visões da infância. Minha vida não passou como um flash diante dos meus olhos. Era uma sensação confusa". Como qualquer outra pessoa, ele precisou assistir à TV mais tarde para conseguir reunir todas as peças do que tinha sucedido.

A lição de muitos livros sobre o 11 de Setembro, com sua seriedade frustrada, pode ser a de que a franqueza americana não se aplica a um assunto que não suporta ver diretamente. Talvez por isso, os melhores romances sobre o 11 de Setembro não foram escritos por americanos, mas por imigrantes ou visitantes. O Fundamentalista relutante, provavelmente o melhor romance sobre as raízes do antiamericanismo islâmico, foi escrito por Mohsin Hamid, escritor paquistanês que mudou-se para os EUA para estudar na Universidade de Princeton. Sua história é partilhada por Changez, o personagem que narra sua história para um visitante americano num café em Lahore. Changez se torna um analista financeiro de uma empresa de Nova York, até que os atentados e a guerra no Afeganistão o obrigam a se perguntar se a América realmente "continha uma parte escrita por alguém como eu".

Como mostra Mohsin Hamid, mesmo o antiamericanismo de Changez usa metáforas da cultura americana. Vista na TV, a guerra afegã se assemelha ao filme O Exterminador do Futuro, mas com os papéis invertidos de modo que as máquinas são apresentadas como heróis.

Essa dupla visão da América, e de Nova York em particular, é partilhada pelo que talvez seja o melhor romance sobre o 11 de Setembro, Netherland, de Joseph O"Neill e por Cidade Aberta, de Teju Cole. Nenhum deles reconstrói os ataques ou trata diretamente do terrorismo.

O" Neill, que nasceu na Irlanda e cresceu na Holanda, e Cole, criado na Nigéria, estão perfeitamente equipados para compreender a Nova York pós-11 de setembro. A cidade consegue provocar admiração do turista e a ambição do imigrante, mas também a indignação do refugiado e a cólera do terrorista. / TRADUÇÃO DE TEREZA MARTINO

É REPÓRTER

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