Escritor retorna a Israel desafiando política nuclear

O programa nuclear de Israel evitou investigações detalhadas durante décadas, mas o retorno de um escritor israelense que estava nos Estados Unidos testa o limite do debate público sobre essa questão hipersensível ocultada pelo segredo oficial. Sem chance de ter seu manuscrito aprovado pelos censores israelenses, Avner Cohen publicou em 1998 seu livro "Israel e a Bomba" nos Estados Unidos, onde trabalha como pesquisador para a Universidade George Washington, Washington, D.C. Apesar da possibilidade de ser preso em Israel, Cohen retornou esta semana e foi imediatamente interrogado pelo Exército e pela polícia sob suspeita de romper o muro legal de silêncio erguido em torno da capacidade militar de Israel. Ele foi libertado sem receber nenhuma acusação, mas será novamente interrogado. Cohen não está concedendo entrevistas durante seus 10 dias de visita ao país, mas falou sobre o programa nuclear israelense em um instituto de Jerusalém vizinho à residência oficial do presidente de Israel, Moshe Katsav. "Todo o desenvolvimento nuclear (de Israel) funcionou como um segredo de Estado dentro do próprio Estado", disse Cohen. "Toda a área transformou-se no buraco negro da democracia israelense." Cohen garante que não busca o confronto com as autoridades de seu país, mas seu trabalho desafia diretamente a essência da política de "impermeabilidade nuclear", de acordo com a qual todo o planeta especula sobre as armas nucleares de Israel e o governo recusa-se a comentar o assunto. Num país onde qualquer discussão pode ser transformada num acalorado debate, Cohen defendeu uma discussão pública sobre a política nuclear de Israel. Ele alega que seu livro foi produzido a partir de informações de domínio público e, portanto não estaria sujeito à censura do Exército. Mas ele sabe que a ameaça de perseguição pela divulgação dos segredos nucleares não está morta. Mordechai Vanunu, um técnico que trabalho no reator nuclear israelense de Dimona, no Deserto de Negev, cumpre uma sentença de 18 anos de prisão por ter fornecido fotografias de dentro do reator ao jornal inglês The Sunday Times em 1986. Com base nas fotografias, especialistas disseram na época que Israel possuía o sexto maior estoque de matéria-prima para armas nucleares do mundo. Recentemente, a CIA, serviço secreto dos Estados Unidos, estimou entre 200 e 400 o número de armas nucleares de Israel. De acordo com Cohen, Israel e os Estados Unidos chegaram a um entendimento em 1970 segundo o qual Washington faria vistas grossas desde que o governo israelense fosse discreto e não realizasse testes nucleares. A proteção dos EUA ajudou o Estado judeu a se proteger de investigações internacionais - a manutenção deste ajuste dispõe de grande apoio no establishment militar e político israelense. O novo primeiro-ministro de Israel, Ariel Sharon, deve renovar o entendimento quando se reunir com o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, em Washington na próxima semana, informou o jornal Haaretz. "A impermeabilidade obteve sucesso aos olhos israelenses, permitindo a Israel gozar de um monopólio nuclear regional sem os custos políticos acarretados pela admissão da posse de armas nucleares", escreveu Cohen em seu livro. "Isso levou muitos árabes a perceberem que o conflito não poderá ser solucionado por meios militares, mas apenas por meio de negociação." Os árabes reclamam há anos, sem sucesso, sobre o status especial de Israel na questão dos armamentos nucleares. Israel nunca assinou o Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares nem abriu seus galpões para inspeções internacionais. Enquanto isso, os norte-americanos evitaram a todo o custo que países "hostis" - tais como Irã, Iraque e Coréia do Norte - desenvolvessem arsenais nucleares. Mesmo países com relações normais com os Estados Unidos, como Paquistão e Índia, foram duramente criticados pelo desenvolvimento de armas nucleares. Em Israel, o lobby antinuclear é fraco e é improvável que Cohen encontre apoio para sua causa. "Está claro que Avner - um amigo meu - desrepeitou a lei", disse o cientista político Ephraim Inbar. Inbar não acredita que Cohen devesse ser processado, mas ele é um defensor da atual estratégia nuclear israelense. O livro de Cohen traça o desenvolvimento do programa nuclear israelense desde sua origem, na década de 50, quando era chefiado por um jovem e bem sucedido funcionário do governo chamado Shimon Peres. Peres, hoje com 77 anos, venceu um Prêmio Nobel da Paz e é ministro de Relações Exteriores do governo Sharon e mantém silêncio sobre o programa nuclear. De acordo com Cohen, Israel construiu primeiro armamentos nucleares brutos pouco antes da Guerra dos Seis Dias, em 1967, quando o país temia ser invadido por exércitos árabes. Desde então, Israel gozou de uma posição de domínio da tecnologia nuclear que não pretende assumir, argumenta Cohen. "Israel não pode abrir o precedente de monopólio nuclear e, por isso, deve manter oculta sua posição nuclear", escreveu ele em seu livro.

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