Esforço contradiz discurso papal, dizem indígenas

A decisão de Francisco de canonizar Junípero Serra contradiz o pedido de perdão pelos "pecados" cometidos pela Igreja Católica contra os povos das Américas apresentado por ele em julho, afirma Ron Andrade, diretor-executivo da Comissão de Índios Nativo-Americanos de Los Angeles, Califórnia.

WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

20 Setembro 2015 | 02h00

"Como você pode pedir para perdoar e esquecer? Matamos seus ancestrais, estupramos suas mulheres, brutalizamos sua religião, entregamos suas terras à Igreja Católica. Como podemos perdoar e esquecer?", indagou Andrade ao Estado.

Segundo ele, Serra era um "conquistador cruel", semelhante a Francisco Pizarro, que derrotou o Império Inca, e Henrique Cortéz, algoz dos aztecas no México.

"Ele era um pregador dos soldados. Eles mataram muitos índios em nome do cristianismo. Isso não o torna um santo", declara Andrade.

Nascido em Mallorca em 1713, Serra viveu 20 anos no México, antes de estabelecer as missões no que hoje é o Estado da Califórnia. No México, ele foi um comissário da Inquisição Espanhola, que no século 18 era mais amena do que nos séculos 16 e 17.

Ainda assim, Serra tinha a função de interrogar e acusar pessoas suspeitas de serem hereges e de praticarem bruxaria, punido pela Inquisição.

Em 1769, o franciscano deixou o México e fundou a primeira missão na Califórnia, que atualmente é a cidade de San Diego. Nos anos seguintes, avançou para o norte, criando novas bases da Igreja. Serra morreu em 1784.

"Do ponto de vista de um missionário hispânico do século 18, a coisa mais importante a fazer era converter a população nativa ao catolicismo e batizar o maior número possível de pessoas", observou Michael Witczak, professor da Universidade Católica da América.

A contribuição de Serra para a história da Califórnia se reflete no fato de que sua estátua é uma das duas que representam o Estado no Congresso dos Estados Unidos, em Washington - a outra é a do ex-presidente Ronald Reagan.

Mas em um indício de seu caráter controvertido, o Senado da Califórnia aprovou em abril um projeto de lei que propõe a substituição da estátua do franciscano Serra pela da astronauta Sally Ride, primeira mulher a ir ao espaço - ela também seria a primeira pessoa abertamente gay a ser representada no Congresso.

Com a canonização de Serra e a visita do papa Francisco, a discussão da proposta na Assembleia Legislativa foi adiada para o próximo ano.

/ C.T.

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