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Gilles Lapouge
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Esforços de Hollande

Desde os ataques do dia 13, a França está no centro do mundo. Sua bandeira tricolor tremula em todos os lugares, de Sydney a Moscou, de Madri a Washington. Seu hino nacional, A Marselhesa, que os franceses estavam esquecendo, fez um "retorno" fulgurante. E a diplomacia francesa, tão apagada em geral, está saltitante.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2015 | 03h00

Esse período estranho terminou simbolicamente na sexta-feira com uma homenagem muito digna prestada pelo governo às vítimas dos atentados. Mas Paris vai continuar, durante 15 dias, no centro do cenário mundial, pois neste domingo tem início um novo evento planetário.

Trata-se da reunião da COP 21, quando a França receberá 40 mil pessoas, entre elas chefes de Estado (Obama e Putin em primeiro lugar) os melhores economistas, climatologistas, geógrafos, economistas. O tema? Como a humanidade poderá enfrentar o perigo apocalíptico que a ameaça: o aquecimento climático.

A pergunta é clara: que medidas todos os países deverão adotar para que a temperatura do globo só aumente dois graus no máximo daqui até o fim do século, sabendo-se que, além desses dois graus suplementares, grande parte da vida sobre a terra será destruída em decorrência de inundações, aumento do nível do mar, ciclones, desaparecimento de espécies, esgotamento dos recursos, doenças e epidemias, colapso de culturas, secas infernais e migrações humanas monstruosas, diante das quais as atuais ondas de imigrantes africanos e do Oriente Médio parecerão brincadeira.

Dessa grande cerimônia do clima, François Hollande será, evidentemente, o organizador. Podemos avaliar em que o perfil do presidente mudou nestes quinze dias? Seu comportamento foi apreciado. Se até então seu nível de popularidade estava baixíssimo, de repente ele saltou 10 a 15 pontos. Essa popularidade repentina se manterá? Hollande, melhor do que ninguém, sabe que esses entusiasmos bruscos são precários e reversíveis.

Em janeiro doe 2014, após a carnificina no jornal Charlie Hebdo sua popularidade aumentou, mas isso foi anulado em poucas semanas. Hollande conseguirá fazer alguma coisa para os ventos favoráveis continuarem a soprar? Ele tem atuado neste sentido. Durante a semana ele visitou os "grandes" (Cameron, Obama, Merkel, Renzi, Putin) para forjar uma grande coalizão mundial apta a colocar de joelhos os loucos do Estado Islâmico.

Teve sucesso? Apenas a metade, talvez um quarto? Há oito dias Hollande, a voz retumbante, falava em criar uma grande coalizão contra o EI. Hoje, ele se refere apenas a uma "coordenação", termo vago e sem substância. É verdade que o presidente partiu para uma "missão impossível", pois, embora todos desprezem o Estado Islâmico, alguns têm simpatia por Bashar Assad, ao passo que outros querem a sua destituição (Obama e Hollande).

Mas pelo menos a semana diplomática de Hollande teve um resultado produtivo: reintroduziu a Rússia no cenário mundial, uma vez que Putin há dois anos tem sido estupidamente boicotado (sobretudo pela França) por causa da Crimeia.

Portanto, um balanço moderado, mas ligeiramente favorável a Hollande. Infelizmente, ao retornar à França após sua maratona pelas capitais e no aguardo da conferência sobre o clima, o presidente recebeu um golpe fortíssimo. O desemprego, que há três anos jurou derrotar, continua a fazer o que lhe dá na cabeça.

Insensível às súplicas do presidente, no mês de outubro a França registrou um aumento de 42 mil no número de desempregados. Hoje no país há 3.589.800 pessoas sem trabalho. Recorde absoluto. Certamente, este problema diz respeito à gestão de assuntos domésticos do país e não às altas esferas onde Hollande tenta se movimentar. Mas para mudar o mundo, como ter confiança num chefe que não sabe administrar sua casa?/TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

GILLES LAPOUGE É CORRESPONDENTE EM PARIS

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