Paulo Beraldo/Estadão
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Esforços internacionais são necessários para reduzir desigualdades, dizem pesquisadores

Pesquisadores de consórcio de instituições da América Latina e da Europa debateram desigualdade e conflitos em evento na Faculdade de Direito na USP

Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2020 | 22h39

Em um momento em que valores da democracia representativa têm sido questionados em diferentes países, é papel das instituições de pesquisa, dos governos e da sociedade civil se organizarem para cooperarem e encontrarem soluções conjuntas para questões transnacionais que afetam cada vez mais pessoas.  

Essa foi uma das conclusões de pesquisadores brasileiros e estrangeiros presentes ao evento Vivendo no limite, realizado pelo Centro Internacional Maria Sibylla Merian de Convivialidade e Desigualdade na América Latina (Mecila), consórcio internacional de sete instituições de ensino patrocinado pelo Ministério da Educação e Pesquisa alemão.  

Nas apresentações, os pesquisadores destacaram que a expectativa de a globalização reduzir as desigualdades e reforçar as democracias e os direitos humanos não se concretizou como imaginado. Nessas fissuras da democracia, como a desigualdade econômica e social, é por onde ascenderam discursos autoritários capazes de conquistar parcelas da sociedade que se viam excluídas e foram cooptadas por forças conservadores que hoje chegaram aos governos. 

"O Brasil e o mundo vivem um período de revisão de conceitos que imaginávamos estabelecidos e consolidados. Mas, de repente, o planeta é varrido por diversas espécies de vírus - de caráter biológico que assustam a todos nós -, mas também de caráter cultural, econômico, político e jurídico", disse o vice-diretor da Faculdade de Direito da USP, Celso Fernandes Campilongo. Segundo ele, esse vírus ameaça conquistas civilizatórias, enfraquece a democracia, restringe liberdades e impede a consolidação de avanços em busca de maior igualdade.

Para o pesquisador Marcos Nobre, da Unicamp e do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), as forças progressistas perderam contato com a realidade diária de importantes partes da sociedade. "E por que as forças regressistas diagnosticaram isso antes?", questionou, acrescentando que falhas da democracia foram usadas por esses grupos para chegar ao poder. "O futuro está em perigo em muitas partes do mundo. A crença de que o progressismo em suas várias formas guiaria o desenvolvimento desapareceu. Hoje, as ameaças autoritárias para a democracia são um elemento que devemos colocar nas análises."  

Cooperação

O cônsul-geral da Alemanha em São Paulo, Axel Zeidler, pediu cooperação internacional para enfrentar os desafios da sociedade atual, em que vários líderes e autoridades públicas têm preferido permanecer em polos ideológicos distantes. "É nosso trabalho manter as conexões, o diálogo, a cooperação e encontrar pontos comuns. E, com o Brasil, há muitos pontos comuns", disse, ressaltando a importância de estimular o conhecimento de base científica para oferecer soluções para os dilemas atuais.

O Ministério da Educação e Pesquisa da Alemanha é o patrocinador do Mecila, que tem outros centros em Gana, Índia, México e um em processo de construção no norte de África. "A ideia é promover a cooperação internacional e transregional em temas como os desafios da convivência em sociedades plurais e desiguais", afirmou Sérgio Costa, professor da Universidade Livre de Berlim e um dos diretores do consórcio. Hoje, a rede tem cerca de 50 pesquisadores em cinco cidades. A sede do Centro é em São Paulo, para onde chegarão todos os anos vários pesquisadores convidados a participar dos trabalhos desenvolvidos.

Para Marcos Nobre, o futuro da ciência e do desenvolvimento estará ligado a iniciativas que permitam a centros internacionais cooperar de formas inovadoras e superar hierarquias tradicionais.

Racismo e desigualdades

Os palestrantes destacaram que a desigualdade na América Latina está ligada com o pertencimento a grupos religiosos, culturais, sociais, raciais, econômicos e também ao gênero.  "São assimetrias profundas que podem ser tratadas com uma série de intervenções de políticas públicas. O papel dos governos é crucial", afirmou a pesquisadora Laura Flamand, coordenadora acadêmica do Colégio de México.

Na avaliação da pesquisadora Nilma Gomes, da Universidade Federal de Minas Gerais, o atual momento também trouxe retrocessos para a luta antirracista, através de reações que questionam saberes consolidados e os reinterpretam. Além disso, disse ela, ignorâncias vêm sendo repetidas e ganham espaço no debate público.

"Quanto mais desigualdades e incertezas nos assolam, mais espaço o discurso com palavras de certeza ganha força", afirmou, destacando o papel da compreensão das emoções e dos sentimentos para entender o fenômeno. "E uma dessas certezas é que se faz necessário construir uma maior articulação entre vítimas do racismo e das mais diversas desigualdades possibilitando uma forte reação antirracista".

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