Espanha deporta milhares de senegaleses ilegais

80 deportados desembarcaram nesta semana em St. Louis, no Senegal, vindos da Europa, em massivo programa de repatriação. Desde o início de setembro já são mais de 3 mil pessoas mandadas de volta ao país africano. Por semana, chegam a esse aeroporto doze aviões trazendo migrantes ilegais que tentavam a sorte longe da pobreza de sua terra natal.Apesar de no início do ano denunciar falta de respeito com os deportados, o governo senegalês resolveu, agora, a cooperar com a Espanha no esforço de repatriação. A polícia senegalesa viajou para a Espanha para ajudar o governo a identificar os imigrantes. Muitos deles jogam fora todos os documento de identidade antes de partir, para tornar mais difícil o retorno à África.A dificuldade de se sustentar no Senegal leva milhares de homens a migrarem. Alassane Sadio, de 32 anos, tentou vários meios legais de ganhar dinheiro. Candidatou-se a um empréstimo oferecido pelo governo para auxiliar quem desejasse deixar o país, mas não obteve aprovação. Acabou comprando passagem em um barco para Europa, por US$ 1 mil. Depois de passar dias apertado com 86 pessoas no barco de madeira, Sadio desembarcou nas Ilhas Canárias, na Espanha. Esperou mais de um mês para conseguir trabalho na Espanha, mas acabou deportado. "Por que nos fazem voltar? Não precisavam da gente antes de partirmos. Por que precisariam agora?", protestou.A opinião da maioria dos deportados é de que o Senegal não deveria ajudar os europeus a tirar o que chamam de "última esperança". Os migrantes argumentam que os empregos no Senegal são escassos e mal pagos. A causa começa a ganhar apoio. A imprensa local atribui a deportação ao racismo europeu. Com eleições presidenciais marcadas para 2007, políticos da oposição acusaram o governo de atender somente interesses estrangeiros.Outra crítica ao governo é de que eles estariam colaborando com a Europa para garantir apoio internacional para as eleições presidenciais de 2007 e para ganhar ajuda finaceira para programas de repatriação. A Espanha prometeu cerca de ?20 milhões (US$25 milhões) para auxiliar jovens senegaleses a encontrarem trabalho sem precisar deixar sua própria terra. "O dinheiro é para os migrantes, mas quantos de nós veremos isto?", questiona o irmão de um deportado, Mbaye Ndiaye, de 29 anos.A França disse que ia disponibilizar mais vistos para estudantes, executivos e artistas senegaleses. No início do mês, a Espanha anunciou acordo com a Gâmbia e Guinea, trocando benefícios por ajuda na identificação de migrantes ilegais. Falta de opçãoOficiais espanhóis dizem que mais de 23 mil migrantes ilegais alcançaram as Ilhas Canárias desde o início do ano - mais de cinco vezes o número de 2005. A maioria deles são senegaleses.O Senegal é freqüentemente lembrado como um modelo de paz e estabilidade em um continente conturbado. No entanto, o povo sofre com a pobreza e com a dependência da agricultura de subsistência e da pesca. "Migrantes são pessoas sem opção", diz Mamadou Ndour, de 53 anos, primo do migrante recém repatriado Pape Fall. Ndour conta que tem diploma e trabalha em uma companhia de exportação de frutas, enquanto o primo migrante é pescador, não recebeu estudo e perdeu os pais cedo. "Ele não tem qualquer tipo de oportunidade."O consultor econômico Moubarak Lo, de Dakar, diz que a massa de jovens desempregados e de migrantes pode reduzir as chances de reeleição do presidente Abdoulaye Wade. "Na última eleição, o voto do jovem foi a chave para a vitória", lembra Lo. As promessas de Wade para esse mandato eram investimento na economia e geração de empregos.

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