Espanha detém pedófilo solto por rei marroquino

Monarca admite erro em indulto após onda incomum de protestos; preso em 2010, espanhol disse procurar vítimas africanas por serem 'mais baratas'

RABAT, O Estado de S.Paulo

06 de agosto de 2013 | 02h15

O indulto real a um espanhol condenado no Marrocos por abusar de 11 menores provocou o maior escândalo de que se tem notícia na dinastia do rei alauita Mohamed VI. "Por negligência", segundo a coroa marroquina, o pedófilo Daniel Galván Viña foi perdoado da pena de 30 anos a que foi condenado em 2011, após admitir diante da Justiça os crimes sexuais. A libertação provocou uma onda de protestos no país no fim de semana. O criminoso foi recapturado ontem na Espanha.

Depois de confrontos entre manifestantes e policiais antidistúrbio ocorridos em Rabat e Tetuan, na sexta-feira, e de outras mobilizações de marroquinos indignados com o perdão concedido ao criminoso, o rei voltou atrás e revogou o indulto no domingo, prometendo uma investigação para determinar as causas da confusão e encontrar os responsáveis pelo erro.

Após o anúncio de que as autoridades espanholas haviam recapturado o pedófilo em Múrcia, no sul do país, Mohamed VI - que afirmou "não ter sido informado da gravidade dos crimes abjetos" de Galván - demitiu o secretário-geral de Administração Penitenciária, Hafez Benachem. Uma ordem de captura internacional foi emitida para a prisão de Galván.

Fontes diplomáticas explicaram a confusão: após a visita do rei espanhol, Juan Carlos, ao Marrocos, no mês passado, autoridades marroquinas entraram em contato com Madri para demonstrar disposição em fazer algum gesto humanitário em relação aos presos espanhóis que cumprem pena no país.

O governo espanhol apresentou, então, duas listas, uma delas com 18 nomes de detentos "indultáveis" e outra com 30 condenados que deveriam ser transferidos para cumprir o resto de suas penas em presídios da Espanha. As listas, porém, foram misturadas - e o rei Mohamed VI acabou perdoando indiscriminadamente todos os 48 presos.

Pedofilia. Em 28 de novembro de 2010, um vendedor da cidade de Kenitra, 40 quilômetros ao norte de Rabat, mostrou para o advogado Hamid Krairi um pendrive com mais de 20 fotos em que menores apareciam em poses sexuais. Krairi - que representou os interesses das famílias de seis das vítimas do espanhol -levou as imagens à Promotoria e, dois dias depois, Galván foi preso.

"Por que você veio para cá (o Marrocos) abusar de crianças marroquinas?", questionou o juiz do caso durante o julgamento. "Porque elas não custam caro e tudo se consegue com dinheiro", respondeu o pedófilo. O diálogo foi reconstituído pela agência EFE, a partir de relatos de Krairi e do advogado de defesa de Galván, Mohamed Benyedu.

Segundo o defensor do criminoso, ele "é um homem que representa um perigo não somente para a sociedade marroquina". "Nem eu nem meu cliente solicitamos o indulto", disse Benyedu, afirmando que Galván, por conta própria, havia pedido a transferência para uma prisão espanhola. / EFE e AFP

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