Karpov/handout via REUTERS
Karpov/handout via REUTERS

Espanha receberá navio com 629 imigrantes barrado por Itália e Malta

Médicos Sem Fronteiras alerta que comida e água estão acabando e as pessoas apresentam sintomas de cansaço e desidratação

O Estado de S.Paulo

11 Junho 2018 | 11h18

MADRI - Depois de horas de um impasse diplomático entre países europeus, a Espanha anunciou nesta segunda-feira, 11, que receberá o barco Aquarius com 629 migrantes, atualmente parado em águas do Mediterrâneo. No domingo, Itália e Malta se negaram a acolhê-lo. 

O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, ordenou que a Espanha “cumpra com os compromissos internacionais em matéria de crises humanitárias” e acolha a embarcação no porto mediterrâneo de Valência, leste da Espanha.

“É a nossa obrigação ajudar a evitar uma catástrofe humana e oferecer ‘um porto seguro’ a estas pessoas, cumprindo desta maneira com as obrigações do Direito Internacional”, afirma o comunicado do governo espanhol.

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No navio da ONG francesa SOS Méditerranée viajam 629 imigrantes resgatados no sábado na costa da Líbia, 123 menores não acompanhados, 11 crianças e 7 mulheres grávidas. O navio está à deriva no Mediterrâneo desde o domingo depois que o ministro do Interior italiano, Matteo Salvini, declarou que “a Itália começa a dizer não ao tráfico de seres humanos” e à imigração ilegal, em mensagem nas redes sociais.

Além disso, Salvini e o ministro de Infraestruturas e Transportes, Danilo Toninelli, do Movimento 5 Estrelas (M5S), pediram a Malta “que assumisse suas responsabilidades” e acolhesse estas pessoas.

A proposta da Espanha “é alentadora, isso mostra que a há Estados sensíveis à urgência humanitária”, disse à France Presse Sophie Beau, diretora-geral da SOS Méditerranée. Faz um intenso calor no porão do navio, onde está a maioria dos imigrantes, principalmente as mulheres, disse a jornalista Annelise Borges, que estava a bordo do Aquarius.

Um dos voluntários do barco, Alessandro Porro, apontou em entrevista ao Huffington Post que, para chegar à Espanha, são necessários dois ou três dias de navegação e afirmou que as provisões no navio estão acabando, embora Malta tenha prometido que enviará mantimentos. 

Em entrevista à agência EFE, o americano David Beversluis, um dos médicos do Médicos Sem Fronteiras (MSF) que estão a bordo do “Aquarius”, alertou que não há “comida suficiente” para todos imigrantes que estão a bordo. “Há água para todos, mas só para hoje.” A maioria dos imigrantes apresenta sintomas de cansaço e desidratação.

A Médicos Sem Fronteiras informou pelo Twitter que “as pessoas na “Aquarius” estão cada vez mais ansiosas e desesperadas”. A MSF disse pela rede social que “um homem ameaçou pular do navio dizendo que tinha medo de voltar para Líbia”, país de onde muitos imigrantes fogem para a Europa e onde descrevem todo tipo de violência.

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Esta é a primeira desde a chegada ao poder da coalizão entre a liga e o Movimento 5 Estrelas (antissistema) que a Itália bloqueia seus portos. A Itália considera que seus sócios europeus a deixaram sozinha com a administração da crise migratória.

Depois do anúncio da Espanha, Salvini , líder da ultradireita Liga, festejou: “Vitória”, escreveu no Twitter. Mais tarde, ele disse à imprensa que esta será a primeira vez que um navio que socorre imigrantes na Líbia os desembarcará em um porto que não é italiano. “Este é um sinal de que algo está mudando”, comemorou.

Salvini fez campanha antes das legislativas prometendo o fechamento das fronteiras aos migrantes. Para frear o número de deslocados externos na Itália, ele e a Liga pregam uma equação que une a deportação de dezenas de milhares de pessoas sem documentos à redução drástica dos desembarques de navios que operam no Mediterrâneo.

A Itália, que 2013 viu desembarcar em seu litoral cerca de 700 mil migrantes, sente que durante a crise migratória a deixaram sozinha na condução da situação sem qualquer alguma ajuda de seus sócios da União Europeia.

Salvini advertiu que todos os navios de ONGs que ajudarem imigrantes na Líbia terão o mesmo futuro do Aquarius. “Quero pôr fim a este tráfico de seres humanos”, garantiu Salvini.

Ele também reagiu à chegada pela manhã, em frente ao litoral da Líbia, de outro barco fretado por uma ONG alemã, a Sea Watch. "Associação alemã, barco holandês, Malta que não se move, França que rejeita e Euruopa que faz a mesma coisa, chega", disse Salvini na mesma rede social.

Impasse interno.

Vários portos italianos, no entanto, expressaram sua disposição de acolher o Aquarius. "Se um ministro sem coração deixa morrer no mar mulheres grávidas, crianças, idosos, seres humanos, o porto de Nápoles está pronto para recebê-los", afirmou, no Twitter, o prefeito da cidade do sul da Itália, Luigi de Magistris.

O chefe do governo italiano, Giuseppe Conte, anunciou que foram enviados dois barcos de patrulha com medicamentos e prontos a atender às necessidades das pessoas à bordo. / AFP

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