Espanha tenta evitar protesto em coroação

Felipe VI assume o trono hoje em cerimônia iniciada na véspera com abdicação formal

ANDREI NETTO , ENVIADO ESPECIAL / MADRI, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2014 | 02h04

Em uma série de cerimônias que deve parar Madri, Felipe VI será coroado hoje como o novo rei da Espanha em substituição a seu pai, Juan Carlos, o homem que comandou a transição política da ditadura para a democracia nos anos 70 e 80. A cerimônia de abdicação, ontem, no Palácio Real, deu início às solenidades de transferência de poder, emocionando monarquistas e provocando a indiferença de republicanos.

A renúncia oficial de Juan Carlos, depois de 38 anos, seis meses e 17 dias de reinado, foi formalizada em uma cerimônia simples, que começou às 18 horas (13 horas em Brasília) e não durou mais que 15 minutos. Ao lado do primeiro-ministro, Mariano Rajoy, o monarca assinou um ato de renúncia - criado para a ocasião, já que a Constituição não especificava as condições de abdicação. O documento estabeleceu o fim de seu reinado para a meia-noite de ontem, quando oficialmente seu filho assumiu a condição de chefe de Estado.

Após assinar o documento, Juan Carlos foi aplaudido por cerca de 180 convidados e abraçou e beijou o príncipe herdeiro. Ao posicionar-se ao lado da princesa Letizia, tendo a mulher, Sofía, à sua direita, estava emocionado, com os olhos marejados. Felipe, então, chamou suas duas filhas, entre as quais Leonor, de 9 anos, agora princesa de Astúrias e nova herdeira do trono espanhol, para se juntarem ao grupo em uma foto de família para a história do país.

O ato marcou a saída de cena do casal Juan Carlos e Sofía da Grécia, que terão os títulos de rei e rainha honorários e tratamento de majestades, mas sem função política. Essa tarefa caberá, a partir de hoje, a Felipe VI, que assume a chefia de Estado aos 38 anos, passando a representar o país no exterior - em uma monarquia parlamentarista, cabe ao primeiro-ministro chefiar o governo.

A cerimônia de posse oficial será às 10h30, na Câmara Baixa do Parlamento. A seguir, Felipe VI e sua mulher desfilarão pelas ruas de Madri até o Palácio Real, quando acontecerá a cerimônia de entronização. Nas duas ocasiões, o novo monarca fará discursos públicos.

Ontem, depois de encontrar três ex-premiês - Felipe González, José María Aznar e José Luis Rodríguez Zapatero -, Felipe VI brincou com os jornalistas que lhe perguntaram sobre as linhas gerais de seu pronunciamento. "Alguma sugestão?", perguntou o novo monarca.

Em Madri, ao longo de todo o dia, fachadas e janelas de prédios públicos foram decorados com bandeiras da Espanha. No fim da noite, um forte esquema de segurança foi montado no percurso a ser realizado pelo casal real. O nível de alerta antiterrorista foi elevado e o espaço aéreo da capital será fechado durante o trajeto.

Por medida de segurança, Felipe VI só desfilará por grandes avenidas, evitando a proximidade excessiva com o público. Além dos atentados cometidos por radicais islâmicos na estação de Atocha, em 2004, ainda pesa na memória o ataque ao rei Alfonso XIII e a sua mulher, Victoria, alvos de um militante anarquista que deixou 24 mortos no dia de seu casamento, em 31 de maio de 1906.

Outra preocupação é manter sob controle os militantes que defendem o retorno da república. Logo após o anúncio da abdicação de Juan Carlos, em 2 de junho, protestos em favor de um plebiscito levaram milhares de pessoas às ruas.

Pesquisas de opinião recentes indicam que 49% dos espanhóis apoiam a monarquia, mas 36% prefeririam a adoção da república. Assim, não é difícil encontrar em Madri quem prefira o fim da linha para a família real ou quem a defenda, em um sinal de divisão do país. "Não penso mal do rei que sai, nem do que entra. Mas penso que o melhor seria a ausência dos dois", disse o comerciante Daniel Robledo. "Viva a República!". Ao ouvir a menção, uma de suas clientes respondeu: "Viva Juan Carlos. E obrigado por 39 anos de paz, democracia, progresso e esperança", insistiu a senhora, que não quis se identificar.

Para os defensores da monarquia, os dois dias são de festa, em especial por marcar a despedida de uma personalidade que admiram. "O ex-rei Juan Carlos foi uma figura histórica mundial", disse o advogado Carlos Galvez. "Com o tempo, saberemos o real balanço positivo e negativo de seu reinado."

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