Albert Olivé/Efe
Albert Olivé/Efe

Espanha vota em meio a crise e deve dar amplo poder aos conservadores

Pesquisas apontam vitória do Partido Popular, de Mariano Rajoy, que voltaria ao poder após oito anos

Jamil Chade, enviado especial

18 de novembro de 2011 | 21h45

MADRI - A Espanha encerrou na sexta-feira, 18, sua campanha eleitoral a caminho de ver as três esferas de poder quase totalmente na mão de um só partido, algo inédito desde a morte do general Francisco Franco, em 1975. As pesquisas apontam uma vitória de Mariano Rajoy, líder do Partido Popular (PP), que terá a maioria absoluta no Parlamento. Em maio, o partido conquistou 11 dos 13 governos estaduais em disputa e 91% dos municípios.

 

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Amanhã, o país votará sob o peso da crise econômica. Com 5 milhões de desempregados e metade dos jovens sem trabalho, todos esperam que o eleitor espanhol puna o Partido Socialista (PSOE), do atual premiê, José Luis Rodríguez Zapatero, no poder há oito anos.

 

Se confirmadas as previsões, o PP terá sobre o PSOE uma diferença de cerca de 18 pontos porcentuais, a maior desde a redemocratização. Para analistas e empresários, no entanto, no curto prazo, a Espanha será governada de Bruxelas e Berlim.

 

O primeiro sinal da derrota de Zapatero veio em maio, quando o PP venceu a maioria das eleições regionais, incluindo bastiões históricos do PSOE, mostrando que grande parte da população culpa os socialistas pela péssima gestão da crise.

 

De acordo com pesquisas, o PP deve obter cerca de 198 das 350 cadeiras do Parlamento. Os socialistas ficariam com, no máximo, 115. Ontem, o candidato do PSOE Alfredo Rubalcaba disse que o excesso de poder dos conservadores não favorece a democracia. "Preocupa-me o fato de um partido ter controle absoluto sobre todos os poderes na Espanha", afirmou. No entanto, para analistas, a maioria absoluta não significa um cheque em branco para o PP, pelo menos não no aspecto econômico. Em Madri, a percepção é de que quem governará será a União Europeia, a partir de Bruxelas, sob as ordens da chanceler alemã Angela Merkel, que exige reformas e um drástico corte de gastos da Espanha.

 

"Todos sabem o que vai ocorrer. Não há outra solução a não ser cumprir o que nos é exigido de fora", disse ao Estado Jesus González, diretor de desenvolvimento de mercado da Bolsa de Madri. "Não há segredo. Há exigências e elas terão de ser atendidas. Caso contrário, receberemos um cartão vermelho e nos tornaremos uma Grécia."

 

González acredita que a única margem de manobra de Rajoy será amenizar o tamanho das medidas de austeridade. "O que será debatido é até que ponto apertaremos o cinto e se isso asfixiará a economia", disse. Para ele, a ampla maioria do PP dará ao governo força para tomar decisões difíceis. "O apoio acabará rápido, mas, pelo menos no início, permitirá que a reforma ocorra."

 

Nas ruas, o sentimento é diferente. Em Barcelona, médicos entraram em greve contra os cortes no setor de saúde, que já afetam o atendimento. Universidades de todo o país também pararam nos últimos dias, assim como os servidores públicos no sul da Espanha.

 

Os sindicatos temem que os cortes de salários, aposentadorias e benefícios sociais causem uma explosão social. "Estamos preocupados. Um a cada quatro desempregados da Europa está na Espanha", afirmou Julio Salazar, secretário-geral da USO, terceiro maior sindicato espanhol. "Falar em cortes é eufemismo. Estamos entrando em um ciclo de estagnação e empobrecimento. As ruas não aceitarão isso sem luta." 

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