Espanha vota em meio a crise e deve dar amplo poder aos conservadores

No auge da pior crise econômica em 30 anos, a Espanha encerrou ontem sua campanha eleitoral a caminho de ver as três esferas de poder quase totalmente na mão de um só partido, algo inédito desde a morte do general Francisco Franco, em 1975. As pesquisas apontam uma vitória de Mariano Rajoy, líder do Partido Popular (PP), que terá a maioria absoluta no Parlamento.

JAMIL CHADE, ENVIADO ESPECIAL / MADRI, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2011 | 03h03

Em maio, o partido conquistou 11 dos 13 governos estaduais em disputa e 91% dos municípios. Amanhã, o país votará sob o peso de sua crise econômica e com a tensão nos mercados em alerta máximo. Com 5 milhões de desempregados e metade dos jovens sem trabalho, todos esperam que o eleitor espanhol puna o Partido Socialista (PSOE), do atual premiê, José Luis Rodríguez Zapatero, no poder há oito anos.

Mas até a tensão de ontem nos mercados foi usada por Rajoy como argumento para pedir votos. Seu discurso de encerramento de campanha insistiu que já não basta vencer as eleições. Quer garantir a maioria absoluta. Segundo ele, isso seria "a melhor mensagem que a Espanha pode dar à Europa e aos mercados".

Em sua avaliação, isso mostraria que o país está unido, algo que acalmaria os mercados. Não por acaso, Rajoy pediu ontem aos aliados que convençam amigos, vizinhos e parentes a votar pelo PP. "Este é o momento de a Espanha mostrar que está unida", apelou.

Se confirmadas as previsões, o PP terá sobre o PSOE uma diferença de cerca de 18 pontos porcentuais - a maior desde a redemocratização. O primeiro sinal da derrota de Zapatero veio em maio, quando o PP venceu a maioria das eleições regionais, incluindo bastiões históricos do PSOE, mostrando que grande parte da população culpa os socialistas pela péssima gestão da crise.

Segundo pesquisas, o PP deve obter cerca de 198 das 350 cadeiras do Parlamento. Os socialistas ficariam com, no máximo, 115. Ontem, o candidato do PSOE, Alfredo Rubalcaba, disse que o excesso de poder dos conservadores não favorece a democracia. "Preocupa-me o fato de um partido ter controle absoluto sobre todos os poderes na Espanha", afirmou. Mas, para analistas, a maioria absoluta não significa um cheque em branco para o PP, pelo menos não no aspecto econômico. Em Madri, a percepção é a de que quem governará será a União Europeia, a partir de Bruxelas, sob as ordens da chanceler alemã, Angela Merkel, que exige reformas e um drástico corte de gastos da Espanha.

"Todos sabem o que vai ocorrer. Não há outra solução a não ser cumprir o que nos é exigido de fora", disse ao Estado Jesús González, diretor de desenvolvimento de mercado da Bolsa de Madri. "Há exigências e elas terão de ser atendidas. Caso contrário, receberemos cartão vermelho e nos tornaremos uma Grécia." Para González, a única margem de manobra de Rajoy será amenizar o tamanho das medidas de austeridade. "O que será debatido é até que ponto apertaremos o cinto e se isso asfixiará a economia." Ele diz que a ampla maioria do PP dará ao governo força para tomar decisões difíceis. Nas ruas, o sentimento é diferente. Médicos e universidades de todo o país pararam nos últimos dias, assim como os servidores públicos no sul da Espanha. Os sindicatos temem que os cortes de salários, aposentadorias e benefícios sociais causem uma explosão social.

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