Alvaro Barrientos/AP
Alvaro Barrientos/AP

Espanhóis esperam mudança política mais importante da última década

Possível eleição do PP, deve impactar políticas de bem-estar social e relação com comunidades autônomas

Christina Stephano de Queiroz, do estadão.com.br,

19 de novembro de 2011 | 18h51

SÃO PAULO - Apesar das divergências sobre a real influência das eleições gerais espanholas no rumo da crise econômica que assola o país, especialistas concordam que a votação marcará a mudança política mais importante da última década.

 

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A previsão é de que o conservador Mariano Rajoy, do PP (Partido Popular) - que substituiu, em 1989, a Alianza Popular, fundada durante o período de transição para a democracia por ex-ministros do ditador Francisco Franco - deve ganhar com maioria absoluta de Alfredo Perez Rubalcaba, candidato do partido do atual líder espanhol, José Luiz Rodríguez Zapatero, o PSOE (Partido Socialista Obrero Español), legenda que está há oito anos no poder e foi fundada clandestinamente em uma taberna de Madri, em 1879.

 

Com a mudança, devem ocorrer alterações significativas nas políticas de bem-estar social, assim como nas regras para acolhimento dos imigrantes. Em particular para a Catalunha e o País Basco, a possível eleição do PP representará uma mudança de direção especial, na medida em que se espera uma atitude menos tolerante do partido com relação às reivindicações de autonomia política. "Nestes momentos, o que a Espanha precisa é atribuir a responsabilidade da crise econômica a um partido", explicou Jordi Matas Dalmases, catedrático de ciências políticas da Universidade de Barcelona.

 

De acordo com Dalmases, é um movimento comum em toda Europa, independente das ideologias dos políticos governantes. "O partido que governa e que gerencia a crise atualmente perderá as eleições seguintes", afirmou ele.  Em sua opinião, o PP "evidentemente" não deve fazer muito mais do que os socialistas para solucionar a crise financeira, já que o futuro econômico da Espanha depende muito mais da Europa do que das políticas locais. "Há pouca margem de manobra interna e nem os grandes economistas sabem em quanto tempo a crise pode passar, porém acredito que tardará pelo menos quatro anos até a economia espanhola começar a recuperar o terreno perdido", avaliou.

 

Impacto da ideologia

 

Por outro lado, ele lembra que, apesar da pouca influência no panorama econômico, a ideologia vai impactar nas gestões internas do novo governo. Assim, se o PSOE ganhasse, priorizaria ações relacionadas ao estado de bem-estar - incluindo as áreas de saúde pública, educação, subsídios e ajudas às pessoas desfavorecidas - enquanto o PP tende a "ter menos escrúpulos para garantir o bem-estar da sociedade", como afirma.

 

Diferente é a visão de Ricardo Montoro, catedrático de sociologia da Universidade Autônoma de Madri, que aposta que "com o PP no governo, será mais fácil sair da crise econômica. Será uma mudança positiva, que pode trazer esperança", afirmou. Para ele, desde a criação do euro, é a primeira vez que se manifesta sobre a falta de adaptação espanhola ao contexto europeu. "Para participar da União Europeia, os partidos devem cumprir os critérios da moeda única. Caso contrário, melhor abandonar a zona", avaliou. Como exemplo de atitude responsável, o professor cita a Grã Bretanha, que não pertence à zona do euro mas tenta sintonizar suas políticas econômicas com as da região.

 

Peso dos 'indignados'

 

Apesar das diferentes opiniões sobre o real poder do PP para gerenciar a crise financeira, os professores estão de acordo que o movimento dos "indignados" não deve causar impacto significativo nas eleições. Para Montoro, os "indignados" representam um movimento minoritário que não tem repercussão no sistema democrático. "O movimento surgiu uma semana antes das eleições municipais e autonômicas da Espanha e não influiu sequer no índice de votos nulos ou em branco", relembra o professor. De acordo com ele, nesta votação, a participação dos espanhóis foi 2% mais alta se comparada às eleições municipais e autonômicas anteriores. Montoro acredita que os "indignados" são mais um fenômeno midiático do que um movimento com relevância política.

 

Já Dalmases, apesar de considerar o movimento "interessante, na medida em que luta para que o sistema democrático seja mais transparente e próximo à sociedade", também afirmou que ele não deve gerar consequências nas urnas. De acordo com ele, os únicos indicadores poderiam ser mais abstinência de votos, porém, em épocas de crise, muitos deixam de votar. "O PP verá esse movimento crescer e vai sofrer com mais intensidade as suas consequências do que os socialistas", disse.

 

Os professores também divergem quando tratam da relação à política com os imigrantes. Montoro, da UAM, afirmou que a "atitude seguirá sendo acolhedora e de tolerância e não haverá discursos xenofóbicos" enquanto Dalmases disse que "as políticas com os imigrantes serão mais restritivas". Para este último, em tempos de crise, escassez de recursos e alto índice de desemprego, os sentimentos xenofóbicos podem aumentar.

 

Catalunha fora do padrão

 

Tradicionalmente, o comportamento político dos catalães costuma ser diferente do resto da Espanha e estas eleições não devem ser distintas. "Estou convencido de que o PP não ganhará na Catalunha", disse o professor da UB. Para ele, na comunidade autônoma, a sociedade deverá fazer um "esforço pedagógico" para aceitar a eleição do PP, já que nesta comunidade - assim como no País Basco - o índice de rejeição do partido é alto.

 

Dalmases opinou que o problema não conjuntural mais importante da Espanha e que se arrasta desde o começo da democracia tem a ver com a relação entre o governo central e as comunidades autônomas, principalmente o País Basco e a Catalunha.  Para ele, o PP tende a agravar esse problema, já que sempre foi restritivo para dar poder às comunidades autônomas. "Hoje, 45% dos catalães está a favor da independência e esse porcentual vai subir nos próximos anos", afirmou.

 

Por fim, com a eleição do PP e com os péssimos resultados eleitorais previstos para os socialistas, Dalmases assegura que o PSOE terá de fazer uma "profunda reflexão". Para ele, o partido se equivocou em um aspecto fundamental relacionado com a crise ao negar, inicialmente, que o país enfrentava problemas econômicos. "E, no final, estávamos diante da crise mais importante do último século", disse. Para o professor, em épocas complicadas como a atual, a comunicação é um bom instrumento para que a sociedade compreenda o que sucede e se sinta mais próxima e implicada na resolução da situação.

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