Espanhóis levam orgulho ferido às urnas para punir socialistas pela crise

Ilusões perdidas. Empobrecida e sob a perspectiva de ajustes fiscais ainda mais amargos no ano que vem, a Espanha deve dar ampla vitória aos conservadores liderados por Mariano Rajoy nas eleições de hoje e impor pesada derrota ao governo de Zapatero

JAMIL CHADE , ENVIADO ESPECIAL / MADRI, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2011 | 03h04

A festa acabou na Espanha. Foram anos de forte crescimento e resgate do orgulho. Mas a crise fez tudo isso desmoronar e, em pouco tempo, a Espanha se transformou no exemplo mais explícito da quebra de um modelo econômico em parte dos países ricos.

A eleição marcada para hoje no país será a síntese de toda a repercussão social, política e econômica da turbulência mundial que eclodiu em 2008 e não dá sinais de que vai diminuir. Os 35 milhões de eleitores que irão às urnas hoje esperam dar uma resposta dura à situação de convulsão social que vivem. Mas todos sabem que o pior ainda está por vir quando as medidas de austeridade exigidas pelo FMI e pela UE começarem a ser implementadas em 2012.

Políticos, economistas e cidadãos consultados pelo Estado são unânimes em afirmar que a eleição marca o fim de uma década de ilusões financiadas por crédito barato, da ilusão de que a Espanha era um país com a mesma influência dos demais governos da UE e o reconhecimento do fim da ilusão de que sociedade -depois de anos de ditadura e privações - era enfim rica.

Mesmo não sendo o único responsável, quem pagará por isso será o governo socialista de José Luiz Rodriguez Zapatero. O pleito deve ser vencido pela direita liderada por Mariano Rajoy. Acusado pela população de ter mentido quando insistiu que não havia risco de uma recessão, Zapatero nem sequer se apresentou às eleições e evitou sair em fotos ao lado dos candidatos.

Ele deixou a candidatura a cargo de Alfredo Rubalcaba, que por anos se sacrificou pelo partido socialista. Desta vez, não foi diferente. Apesar de alguns avanços em temas como direitos de homossexuais, do direito das mulheres e da abertura de valas do franquismo, a herança é maldita: o desemprego subiu e a economia está estagnada. Há 400 mil empresas fechadas, uma nova classe de pobres, uma dívida de 700 bilhões e uma população em estado de depressão.

Em apenas dois anos, quase 100 mil espanhóis abandonaram o país em busca de trabalho, até mesmo no Brasil. Pela primeira vez em sua era democrática, a Espanha passou de um país de acolhimento para um de geração de imigrantes.

"Estamos destroçados moralmente. Falo quatro idiomas e tenho mestrado. Mas não tenho dinheiro para alugar um apartamento, não tenho trabalho e sou dependente de meus país, que estão tendo as aposentadorias cortadas. Espero que o mundo esteja vendo aonde foi parar a crise", diz Victoria Gómez, enquanto aguarda na longa na fila de um escritório para buscar empregos em Madri. A fila é mesmo uma coleção de dramas. "Ninguém sabe o que fazer", contou o ex-taxista Juan Motta, que teve de devolver seu carro ao banco depois que sua renda mensal caiu em 70%.

"Eu ganhava 50 por dia como faxineira em 2003. Hoje, não ganho isso por semana", contou a brasileira Sônia, que vende docinhos para os desempregados na fila e espera o fim do ano para voltar para o Ceará.

Sangue. Nem os políticos disfarçam o desespero. "A Espanha entrará numa era de sangue, suor e lágrimas", afirmou o político catalão Joan Duran Lleida. Rajoy deve assumir o poder à beira de uma intervenção da UE e com suas mãos atadas: terá de economizar 17 bilhões só no primeiro ano de governo para cumprir as exigências de Bruxelas. E ainda terá de demonstrar rapidamente aos mercados de que tem um plano para isso.

A estratégia será a de adotar um verdadeiro plano de choque de cortes radicais. Sindicatos já alertam que o país pode explodir em protestos. "Serão meses de ajustes severos", disse ao Estado José Izagirre, prefeito de San Sebastián. Ele admite que isso alimentará ainda mais o descontentamento social. "O povo está farto dos políticos."

Ontem, nas principais praças, a população desafiou a lei eleitoral que proíbe atos um dia antes da votação e saiu para mostrar que não vai ficar passiva diante da convulsão. No "dia de reflexão", centenas de indignados foram à Porta do Sol, em Madri, para deixar claro que não confiam mais na classe política e pedem uma reforma drástica do sistema eleitoral. "A crise mostrou que o sistema político terá de mudar. Vamos mudar de governo amanhã, mas não de situação", acusou Virginia, uma das manifestantes.

Para um dos economistas mais badalados hoje em Barcelona, Santiago Niño-Becerra, não há outro remédio que não seja assumir a crise. "O ano que vem será terrível para a Espanha, pior que 2011", afirmou ao Estado.

Assessores do Partido Popular (PP), que deve ser o vencedor das eleições na Espanha, afirmaram ontem que o gabinete da chanceler alemã, Angela Merkel, demonstrou a intenção de que o futuro governo espanhol esteja presente na cúpula da UE, no dia 9, pois "não quer mais se sentar com perdedores". O governo socialista rejeita acelerar a transição, prevista para ser concluída às vésperas do Natal, mas admite que poderá "trabalhar juntamente" com o novo governo em "decisões fundamentais". Já o PP admite a possibilidade de pedir que se decrete "emergência nacional" para justificar uma troca de governo imediata. Para Berlim, a demora na transição pode frustrar os mercados e manter a tensão na UE até o fim do ano, o que o bloco quer evitar. / J.C.

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