Pedro Acosta/AP
Pedro Acosta/AP

Espanhóis mantêm ato antigoverno

Em assembleia, manifestantes reunidos na praça Porta do Sol, em Madri, decidem manter mobilização contra crise que o país atravessa

Fernando Nakagawa, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2011 | 00h00

Um dos cinco milhões de desempregados espanhóis, Guillermo Ortiz, de 34 anos, quer mais programas sociais e a reforma do sistema eleitoral. A poucos metros dali, o autônomo Luis Sanchez, de 23, defende o fim dos partidos. Já a operadora de telemarketing Silvia Van Teslaar, de 18, quer acabar com lucros milionários dos bancos, mas admite não se preocupar muito com o destino das legendas políticas.

Discursos tão diferentes estavam juntos na madrugada do último sábado na principal praça de Madri, a Porta do Sol, no 14.º dia do acampamento montado para protestar contra a situação política, econômica e social da Espanha. Tanta diversidade era sinal de que a hora de desmontar a barraca poderia estar se aproximando. Naquela noite, um dos poucos pontos coincidentes eram as flores nas mãos dos 3 mil manifestantes - pedido feito pelas redes sociais em resposta à violência em Barcelona.

Apesar de mais fraco, o acampamento vai continuar. Ontem, os jovens decidiram em assembleia que o protesto segue. Depois de duas semanas acampados, os manifestantes rejeitaram o plano de fazer protestos menores nos bairros. Nem mesmo os 121 feridos no protesto em Barcelona foram capazes de injetar ânimo novo ao movimento que dava claros sinais de cansaço nos últimos dias.

Nascido da insatisfação de jovens com um país com desemprego de 21% - que alcança quase 50% entre os mais novos -, o "Acampadasol" surgiu nas redes sociais no dia 15 e ganhou réplicas rapidamente em todo o país e algumas cidades europeias em crise, como Atenas e Lisboa. O surgimento do movimento aconteceu exatamente uma semana antes das eleições municipais em que o grande vencedor foi o Partido Popular, grupo conservador e de oposição ao primeiro-ministro socialista José Luis Rodríguez Zapatero.

Exaustão. "Todos estão cansados e há ansiedade por resultados rápidos. Isso aumenta as diferenças e reduz a força. Temos de ter paciência", protestou na madrugada de sábado o professor de inglês desempregado Guillermo Ortiz que, após o fim dos seis meses de auxílio do governo, passou a fazer bicos para pagar as contas. Pouco depois da 1h da manhã, cansado após a assembleia de três horas, Guillermo defendeu que os dois principais partidos - PP e PSOE - executem uma reforma política para dar mais voz aos grupos menores.

O professor desempregado era um dos lotavam a praça desde o fim da tarde. Era o início do fim de semana e, após o fim da chuva que havia começado pela manhã, o acampamento estava mais cheio que nos dias anteriores. A organização mantinha diversas barracas no centro da praça para arrecadar assinaturas em apoio ao movimento, explicar as intenções do grupo, recolher sugestões, distribuir comida, além de atividades lúdicas como leitura, poesia e até ioga.

Heterogêneo. Apesar da organização, faltava unidade e as decisões custavam a sair naquela noite porque havia sido decidido que medidas só seriam tomadas por consenso. Entre os 3 mil que lotaram a praça, havia de tudo: os que estavam desde o início do movimento, os que chegaram horas antes e centenas que, como Guillermo, vão e voltam todos os dias. "Não posso dormir aqui porque trabalho, mas quero mudanças", diz a operadora de telemarketing Silvia Van Teslaar.

Com contrato temporário e salário que chega no máximo a 600 euros (cerca de R$ 1.370), a jovem pede mudança do sistema financeiro. "Não é justo que os bancos tenham lucros bilionários e tantos estejam em situação degradante" analisa. "Minha mãe está desempregada há seis meses e não recebe ajuda do governo."

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