Espanhóis querem vantagens no Iraque pós-Saddam

Embora não se pronunciem de modo oficial, os principais grupos econômicos espanhóis apóiam a posição do governo José Maria Aznar ao lado dos Estados Unidos no caso da guerra contra o Iraque, na expectativa de participarem da reconstrução do país detentor da segunda maior reserva de petróleo do mundo."A Espanha não pode permanecer no canto que a história reserva aos países sem influência nem poder de decisão"- esta recente declaração do dirigente espanhol é retomada a cada passo nas análises em "off" que os meios industriais e financeiros de Madri e Barcelona realizam sobre o alcance econômico do conflito.Nesta perspectiva, um dos dirigentes do grupo petrolífero hispano-argentino Repsol YPE, sob a garantia do anonimato, não escondeu a um jornal madrilenho suas dúvidas sobre se - mesmo oferecendo apoio incondicional aos Estados Unidos - a Espanha conseguirá uma fatia do "bolo iraquiano", pelo menos no setor de combustíveis. Seus receios se baseiam no precedente do Kuwait: "Após a primeira Guerra do Golfo, em 91, os grupos americanos e anglo-holandeses partilharam entre si as concessões para a exploração do petróleo no país, não deixando nada para Repsol." Segundo o mesmo executivo, o objetivo principal de Repsol YPE, agora, é a obtenção da concessão da reserva petrolífera iraquiana de Nassiria, com capacidade de produção estimada em 320 mil barris/dia.A convicção dominante, contudo, no seio do empresariado espanhol é de que, desta vez, o isolamento diplomático dos americanos no caso do Iraque dá maior visibilidade e relevância ao apoio oferecido por Madri a Washington.De olho na contrapartida, os executivos espanhóis já fazem projeções sobre as novas possibilidades de negócios a serem abertas com a eliminação da ditadura iraquiana. Os setores mais cobiçados são os da construção civil, bancos, alimentação, material militar, aeronáutica e telecomunicações, que asseguram hoje à Espanha espaço expressivo no mercado mundial.Até recentemente, o governo José Maria Aznar manteve boas relações com o regime de Saddam Hussein, defendendo a idéia de conciliar o processo de desarmamento do Iraque com a progressiva suspensão do embargo comercial a que o país estava submetido.O intercâmbio diplomático entre Madri e Bagdá esfriou depois dos atentados de 11 de setembro nos Estados Unidos. A Espanha teve reduzida sua parte nas transações comerciais do Iraque dentro do programa da ONU "petróleo em troca de alimentos". Hoje, apenas cerca de 50 empresas espanholas fornecem produtos ao mercado iraquiano, por um montante anual calculado em US$ 500 milhões."Mas o mais importante agora é pôr um fim às dúvidas e incertezas decorrentes da crise iraquiana e do terrorismo internacional, para que as pessoas possam viver sem tantos sobressaltos e a economia volte a funcionar normalmente". Foi essa a fórmula encontrada nesse fim de semana pelo banqueiro Francisco Gonzales para expressar, de público, apoio implícito à posição tomada pelo chefe do governo José Maria Aznar em favor da guerra, mas contra a qual se opõe cerca de 90% da população espanhola.A Espanha foi o primeiro pais europeu a reabrir sua embaixada em Bagdá após a Guerra do Golfo.

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