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Especialistas analisam Iraque pós-Saddam

Os cenários projetados pelos centros europeus de estudos estratégicos relativos ao "Iraque pós-Saddam" variam muito de alcance, ante a margem ainda ponderável de incertezas sobre se a eventual deposição do dirigente iraquiano, na esteira de uma intervenção militar americana, implicará ou não o desmantelamento do regime instaurado no país.Coordenador do grupo de estudos de defesa da École des Hautes Etudes en Sciences Sociales de Paris (EHESS), o professor Elie Kheir, em entrevista à Agência Estado, não descarta a eliminação física de Saddam Hussein nesta operação em perspectiva. Ele duvida, no entanto, que tal "solução", passando pela escolha de outro dirigente militar ou civil, abra, de fato, o caminho à normalidade política do Iraque, conforme as novas concepções geoestratégicas dos Estados Unidos para o mundo árabe-muçulmano, baseadas na conversão deste aos valores democráticos.No entender do especialista franco-canadense, a manutenção do status quo institucional no Iraque, com a mudança apenas do chefe de Estado, compromete, de saída, a doutrina americana sobre a segurança com democracia. A este cenário, todavia, as forcas rebeldes do Curdistão iraquiano - semi-emancipado da tutela de Bagdá desde 91 e sob a proteção aérea dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha - se acomodariam sem problemas. Com a autonomia relativa de que gozam, os curdos, dispondo de 80 mil combatentes e tidos como o "principal aliado potencial do interior" dos americanos, passaram a experimentar o gosto de uma certa prosperidade, graças aos 13% das receitas que lhes tocam com as vendas do petróleo iraquiano no esquema "combustível por comida" definido pela ONU.Sem dúvida, os curdos se sentiriam mais motivados para um engajamento contra o regime de Bagdá nos moldes do assumido no Afeganistão pela Aliança do Norte, se Washington aceitasse o compromisso de viabilizar a implantação do sistema federativo no Iraque. Porém, segundo a recente conversa em Paris de um alto dirigente curdo com Elie Kheir até agora, "o único engajamento vago e verbal" dos americanos na questão foi formulado pelo vice-presidente americano Richard Cheney. Mais ou menos nesses termos: os Estados Unidos preservarão os direitos do Curdistão ao lado da integridade territorial do Iraque. Cheney evitou a palavra-chave - "federação".A ambigüidade de Cheney poderá ser explicada, como observa o especialista franco-canadense, pelo fato de que a Turquia - aliado estratégico dos Estados Unidos por sua condição de ponto de confluência geográfico entre o Ocidente e o mundo muçulmano - rejeita a idéia de federação no Iraque. Isto porque os turcos já se desdobram para conter "o contágio federativo", uma vez que abrigam em seu território uma minoria curda imbuída dos mesmos anseios."Em suma", comenta Kheir, "ante a verificação de que as principais forças de oposição, como o Conselho Superior da Revolução Islâmica( às voltas com conflitos internos), o Congresso Nacional Iraquiano (baseado no exílio e escasso de combatentes) e os curdos não se entendem sobre um programa político para o "pós-Saddam", o mais provável seria a instalação em Bagdá de uma réplica iraquiana do presidente afegão Hamid Karzai." Pelos cálculos do grupo de estudos da EHESS, caso se concretizem a invasão do Iraque e a introdução da "réplica iraquiana" (cujo retrato-falado ninguém ousa ainda esboçar) nas estruturas de poder deixadas por Saddam e apenas expurgadas dos partidários fanáticos do ditador, os americanos e seus aliados terão de articular um esquema de segurança composto de 100 mil a 150 mil homens para o novo governo de Bagdá. Ou seja, um dispositivo muito superior ao que protege a cúpula dirigente afegã em Cabul, mas de implantação menos problemática, em face da importância capital de Bagdá na economia do petróleo."Se os Estados Unidos ou a coalizão de países ocidentais não assegurarem uma presença maciça de tropas em Bagdá, o risco de explosão de uma guerra civil será muito grande, haja vista a soma de interesses contrariados por uma sucessão em torno da qual as comunidades xiitas, sunitas, os chefes tribais, as forças militares remanescentes e os curdos dificilmente chegarão a um consenso", é avaliação dos franceses.Quanto ao cenário mais ambicioso baseado na idéia da transformação do Iraque na primeira grande democracia do mundo árabe-muçulmano, conforme as aspirações da nova doutrina geoestatégica de Washington, tal cenário, na opinião de Elie Kheir, pressupõe o desmonte completo de todas as estruturas do regime de Saddam Hussein para uma reconstrução política próxima da que os Estados Unidos promoveram no Japão depois da segunda guerra mundial. "A execução de um projeto similar no Iraque demandará muito tempo e uma rede de segurança dos governos de transição constituída de 200 mil a 300 mil homens", ele assinala e lembra, em seguida, que hoje, 57 anos após a implantação do regime democrático no Japão, ainda existem forças americanas estacionadas no país".Resta saber, enfim, nota o especialista, se Israel, de um lado, a Arábia Saudita e os demais países árabes, do outro lado, se resignariam a aceitar que uma democracia no Iraque, forte e rica, modifique as correlações de forças e se converta em poderoso centro de gravidade da política regional.

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