Especialistas apontam próximos desafios globais

Relatório patrocinado pela Universidade de Oxford afirma que estabilidade do mundo depende de parceria entre EUA e China

LOURIVAL SANTANNA, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2013 | 02h01

A estabilidade do mundo nas próximas décadas depende de acordos entre os EUA e a China para investirem em Estados frágeis, acentuar o isolamento de países e grupos que causam conflitos regionais e internos, adotar medidas eficazes contra as mudanças climáticas e garantir a segurança na internet.

Essa é a principal conclusão, no campo da geopolítica, de relatório produzido por uma comissão de 19 especialistas, patrocinada pela Universidade de Oxford. Intitulado "Now For the Long Term" ("Agora no longo prazo"), o relatório faz diagnósticos sobre os principais desafios em todas as áreas e apresenta recomendações aos líderes mundiais.

O estudo prevê que a economia chinesa tomará o lugar da americana como a maior do mundo, já em 2016. Os EUA, no entanto, continuarão tendo papel determinante. Portanto, conclui o relatório, "as relações sino-americanas são a mais importante parceria bilateral deste século". Entre os especialistas estava Liu He, tecnocrata chinês que teve papel importante na elaboração do plano de reformas debatido - e, aparentemente, adotado - na semana passada pelo Comitê Central do Partido Comunista da China.

A comissão, que teve também a participação do ex-chanceler brasileiro Luiz Felipe Lampreia, assinala que a China não é a única nova potência, e cita também, nessa ordem, Índia, Brasil, Alemanha, Nigéria, África do Sul e Indonésia. "A maioria das instituições, no entanto, opera segundo arranjos geopolíticos do século 20, com sérias deficiências", critica o relatório. "Países com papel decrescente retêm poder desproporcional."

O número de países quadruplicou desde a constituição dos organismos multilaterais no pós-guerra, além da ascensão das ONGs à mesa de negociações. Diante disso, diz o documento, "a reforma das instituições de governança do século 20 já passou da hora". Ela deve incluir o ingresso de novos membros permanentes no Conselho de Segurança da ONU - o Brasil postula uma vaga -, mudanças nas regras de votação das instituições de Bretton Woods - como o FMI e o Banco Mundial -, revigorar o G-20 (grupo das 20 maiores economias, que reúne 80% do PIB e do comércio mundiais), para que atue também fora de momentos de crise e em questões como mudança climática.

Em um momento de acentuada descrença diante das instituições internacionais, a comissão, que se reuniu em abril e em junho em Oxford, chama a atenção para o êxito da Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean) e da Cooperação Econômica da Ásia-Pacífico (Apec). O grupo ressalta a atuação da Asean após a crise asiática de 1997, quando desenvolveu mecanismos de monitoramento regional, reuniu fundos para oferecer lastro a moedas locais e colocou em prática programas para prevenir crises futuras, que , não mais ocorreram na região.

Além das instituições, o relatório chama a atenção para a importância da liderança na obtenção de resultados na arena internacional. Um exemplo foi a ratificação da Convenção-Quadro sobre o Controle do Tabaco (FCTC, na sigla em inglês), o primeiro tratado global de saúde pública, adotado em 2003. "A ideia de regular a produção e o marketing do tabaco enfrentava resistência, mas a eleição de Gro Brundtland (ex-primeira-ministra norueguesa), em 1998, como diretora-geral da Organização Mundial de Saúde (OMS), deu à FCTC o impulso necessário", diz o documento.

Dois terços dos 177 países que aderiram à FCTC adotaram medidas tributárias para limitar o consumo de tabaco, 85% tornaram obrigatórios os avisos de que fumar prejudica a saúde e 86% baniram formas de publicidade, promoções e patrocínios. Como resultado, o consumo de cigarro caiu em 18 dos 25 países que forneceram dados à OMS.

Os especialistas observam também que "novos paradigmas" para a solução de graves problemas e crises no cenário internacional têm surgido da parceria entre governos, empresas, universidades e sociedade civil. Um exemplo é o Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC), criado em 1988. Seus relatórios têm sido objeto de críticas, mas, por sua "natureza colaborativa e inclusiva", eles têm sido mais estudados do que qualquer outro documento na história da ciência.

Em junho, quando a comissão se reuniu pela segunda vez, estava sob o impacto das revelações sobre a espionagem da Agência Nacional de Segurança (NSA) dos EUA. Numa análise mais ampla, o relatório destaca que o ciberespaço poderá se tornar o domínio predominante da guerra assimétrica, por meio da qual, apenas com recursos relativamente baixos e conhecimento, pode-se ameaçar inimigos muito mais poderosos.

O relatório recomenda a criação de uma plataforma de alerta da qual participariam governos, empresas e indivíduos. Chamada de CyberEx, a plataforma seria independente, custeada pelos participantes e compartilharia informações sobre vulnerabilidades na web, tráfego suspeito, vírus e ajudaria países e empresas a identificar e implementar programas e padrões de segurança. "Governança múltipla e transparência serão críticas para que a CyberEx seja uma plataforma confiável", diz o texto.

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