Especialistas criticam aspereza de Bush com Argentina

Mesmo os analistas que aplaudiram a iniciativa do presidente George W. Bush de marcar seu primeiro ano na Casa Branca reafirmando a importância que pretende dar às relações com as nações do hemisfério não esconderam a perplexidade com o tratamento rude que ele reservou à Argentina no discurso que pronunciou na noite desta quarta-feira na sede da Organização dos Estados Americanos. ?Não havia nenhuma razão para negociar com a Argentina em público?, disse o presidente do Diálogo Interamericano, Peter Hakim, criticando a dura reiteração das condições do apoio americano a Buenos Aires feita por Bush. ?O presidente deveria se limitar a dizer que os EU estão trabalhando com a Argentina, que queremos e que vamos ajudar e que somos otimistas quanto às chances de os argentinos conseguirem superar a crise?, afirmou Hakim. Embora poucos censurem, na essência, a atitude adotada pela atual administração, de exigir um programa econômico consistente e sustentável antes de apoiar novos créditos à Argentina, a aspereza com que Washington tem comunicado sua posição em meio à dramática crise é vista com crescente apreensão pelos especialistas. Nancy Birdsall, ex-vice-presidente executiva do Banco Interamericano de Desenvolvimento e atual diretora do Centro para o Desenvolvimento Global ? o mais novo ?think tank?em Washington ? disse que ?a administração poderia mostrar uma atitude de maior preocupação com o bem-estar dos argentinos?. Arturo Valenzuela, um professor da Universidade de Georgetown que foi assessor sênior do Conselho de Segurança Nacional para a América Latina no governo Clinton, responsabilizou nesta quinta-feira não apenas o atual governo, mas a própria administração para a qual trabalhou pela falta de apoio ?e de iniciativas que poderiam ter ajudado o presidente Fernando de la Rúa?. Também chamou a atenção de Hakim, o presidente do Diálogo Interamericano, a veemência das declarações de Bush sobre a necessidade absoluta da aprovação final pelo Congresso da Autoridade de Promoção Comercial (TPA), a lei conhecida como ?fast track?, pela qual o legislativo autoriza o executivo a negociar novos acordos comerciais e assume o compromisso de não apresentar emendas ao que for negociado. No início do mês passado, a Câmara de Representantes aprovou uma versão altamente condicionada do TPA, por apenas um voto, depois que a administração fez várias concessões aos lobbies protecionistas das indústrias de aço, têxtil e do setor agrícola. ?O problema é que as chances de aprovação do TPA, que ainda precisa passar pelo Senado e ser aprovado novamente pelas duas casas do Congresso, continuam a ser apenas pouco melhores do que 50%?, disse Hakim. Para ele, Bush assumiu um risco político desnecessário ao insistir tanto na aprovação do TPA. ?O acordo de livre comércio que a administração está concluindo com o Chile, a Lei de Preferências Comerciais aos Países Andinos e o acordo de livre comércio que ele propôs com a América Central poderiam avançar sem o ?fast track??, disse ele. ?Em outras palavras, ao dizer ?nós precisamos do TPA?, Bush abriu a possibilidade de ver toda a sua agenda de polícia comercial comprometida.? Por causa da margem de apenas um voto da aprovação da legislação na Câmara, vários analistas tem aventado a possibilidade de ela acabar sendo descarrilada no momento em que as duas casas do Congresso tentarem conciliar suas versões diferentes do projeto de lei, depois que o Senado se pronunciar. Há dúvidas mesmo se a maioria democrata que controla o Senado colocará o tema em votação. Robert Lighthizer, um ex-vice representante de Comércio da Casa Branca, e Philip Potter, do NAFTA Institute, estão entre os defensores da liberalização comercial que acham difícil a provação final do TPA. ?A aprovação do TPA não deve ser vista como algo automático?, disse Potter ao Estado.

Agencia Estado,

17 Janeiro 2002 | 20h45

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