Especulação cerca arsenal químico sírio

Analistas e autoridades reconhecem falta de informação confiável sobre estoques de Assad

ROBERTO SIMON, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2012 | 03h04

Ao "confessar" que tem armas químicas, a Síria entrou na semana passada para a pequena lista de países que assumidamente detêm esses temidos arsenais. Mas, fora a informação de que de fato elas existem, pouco se sabe sobre as armas de destruição em massa de Bashar Assad - e a guerra de versões que cerca a crise síria torna o cenário ainda mais nebuloso.

O Estado conversou sobre o arsenal químico de Damasco com analistas de centros de pesquisa, um ex-agente do Mossad e um ex-funcionário da Organização para Proibição de Armas Químicas (Opaq), da ONU. Embora todos acreditem que a Síria tem um estoque considerável de gases mostarda, sarin e VX, não há consenso sobre a dimensão ou mesmo o risco representado por essas armas. Eles se dividem também sobre a possibilidade de Assad ter armas biológicas.

A confusão sobre o assunto ficou nítida no próprio dia em que a Síria admitiu ter as armas químicas - e logo voltou atrás, mas sem muito efeito. O porta-voz da chancelaria de Damasco, Jihad Makdissi, afirmou que "armas químicas e biológicas jamais serão usadas durante a crise na Síria, independentemente do que acontecer". Mas, em seguida, ressalvou: "Elas nunca serão usadas a não ser que a Síria enfrente uma agressão externa".

O regime acusa "agentes externos" pelos 17 meses de crise e muitos leram na declaração de Makdissi um aviso implícito. "Regime sírio faz ameaça de guerra química", foi a manchete do jornal britânico The Guardian. Outros entenderam o oposto. A chamada do New York Times: "Síria diz que não usará armas químicas para frear rebelião".

As fontes de informação sobre o número e a natureza do armamento de Assad não são menos contraditórias. A Síria nunca abriu suas instalações para inspeção e os balanços de agências de inteligência raramente são divulgados. Na maioria dos casos, relatórios independentes e reportagens entram em curto-circuito: uma informação citada por um volta a aparecer em outro e assim por diante.

"Sim, parece haver uma câmara de eco na imprensa", diz John Hart, pesquisador de armas químicas do Stockholm International Peace Research Institute. "A Síria, muito provavelmente, tem essas armas, mas nós não sabemos os detalhes." Hart aponta que há poucas fontes oficiais - na Síria, no Ocidente e em Israel - sobre o arsenal de Assad. E as que existem apresentam "lacunas importantes".

Inimigos. Um dos países que mais contam com informação sobre os estoques da Síria é Israel, cujo governo afirmou, na semana passada, que intervirá no vizinho caso essas armas sejam passadas adiante. Ex-número 2 do Mossad, Ilan Mizrahi diz que o arsenal químico, "por enquanto", está "sob completo controle" do Exército sírio. "Se essa situação for abalada, aí teremos um sério problema. Todas as partes, incluindo americanos e russos, estão avisando os sírios a não usá-las e não entregá-las ao Irã ou ao Hezbollah. É nisso que a inteligência israelense está se concentrando."

Diretor do centro de pesquisas Begin-Sadat e assessor do Exército de Israel, Efriam Inbar afirma que "há décadas" Tel-Aviv acompanha de perto a movimentação dos estoques químicos da Síria. Estima-se que o programa teve início em meados dos anos 70, com ajuda do Egito. Mas a possível queda de Damasco traz uma incerteza inédita. "Alguns foguetes do ditador líbio Muamar Kadafi vieram parar nas mãos de militantes da Faixa de Gaza. Qual será o destino das armas de Assad?"

Segundo um diplomata que trabalhou na Opaq e falou ao Estado em condição de anonimato, o manuseio de armas químicas exige um treinamento intensivo, o que torna improvável que elas sejam usadas por um grupo terrorista "que esbarrar com os arsenais de Assad". "Se já é difícil para um bioquímico ou um farmacêutico mexer com isso, imagine para um terrorista sem experiência. É incalculável o risco."

Diferentemente de países como Líbia e Iraque, que cogitaram entrar na Opaq no início dos anos 2000, a Síria nunca quis integrar a agência ou mesmo assinar a Convenção de Armas Químicas, de 1993. Damasco acreditaria que seu arsenal ultrassecreto serve de elemento de dissuasão diante de Israel, potência atômica da região.

O ex-funcionário da Opaq afirma que é muito mais fácil esconder um programa químico do que um nuclear. "Instalações que produzem substâncias como gás VX ou sarin podem ser pequenas, geralmente ficam em zonas civis. Os inspetores só conseguem detectá-las vendo as plantas dos prédios e os encanamentos - a chave é o sistema de ventilação, que tem características específicas."

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