Fabrice Coffrini/AFP
Fabrice Coffrini/AFP

'Esperamos o pior', diz Bolsonaro sobre risco de uma resistência de Maduro

Líder brasileiro anuncia reconhecimento do Brasil ao opositor Guaidó como presidente da Venezuela

João Caminoto e Jamil Chade / ENVIADOS ESPECIAIS A DAVOS, SUÍÇA, O Estado de S.Paulo

23 de janeiro de 2019 | 18h35
Atualizado 23 de janeiro de 2019 | 22h06

O presidente Jair Bolsonaro afirmou nesta quarta-feira, 23,  estar preocupado com a possibilidade de que haja uma resistência por parte de Nicolás Maduro diante da decisão de Brasil, EUA, Colômbia e outros países de reconhecer opositor Juan Guaidó como o presidente interino da Venezuela. “Todos nós conhecemos um pouquinho Nicolás Maduro. Esperamos o pior. Há uma preocupação, sim”, disse Bolsonaro em declarações exclusivas ao Estado

“Mas achamos que Guaidó não receberá qualquer tipo de retaliação de Maduro, até porque o mundo está de olho nisso e os EUA também reconheceram”, completou o presidente. 

Fontes do governo brasileiro e da oposição venezuelana afirmaram à reportagem que o processo para que o regime de Maduro caia está “cuidadosamente” sendo gestado e cada ato está ocorrendo dentro de um cronograma desenhado entre os EUA e países da região. 

Bolsonaro participou nesta quarta-feira, 23, em Davos de uma reunião com os presidentes de Colômbia, Equador e Costa Rica, além de chanceleres do Canadá e de outros países. Instantes depois de dar as declarações ao Estado, diante da imprensa internacional, ele confirmou a decisão do governo brasileiro. 

“O Brasil reconhece Guaidó como presidente da Venezuela. O Brasil, juntamente com os demais países do Grupo de Lima, que estão reconhecendo um a um esse fato, daremos todo o apoio político necessário para que esse processo siga seu destino”, disse. 

Logo pela manhã, antes mesmo de o povo venezuelano sair às ruas, o chanceler Ernesto Araújo já estava reunido em Davos com o chanceler do Paraguai, Luis Alberto Castiglioni. “Queremos que o Grupo de Lima seja ampliado para permitir que haja um impacto”, disse o paraguaio. “Hoje, a única maneira é a pressão internacional”, declarou. 

Diplomatas esperam que, com os EUA no Grupo de Lima e o Brasil fazendo parte dos Brics, possa haver uma pressão maior sobre russos e chineses, que mantêm apoio a Maduro. Na visão de alguns governos da região, o Grupo de Lima ameaçava perder impacto se continuasse a fazer declarações de força, mas sem o envolvimento de EUA e outras potências. 

Ricardo Hausmann, um dos venezuelanos que organiza um plano econômico para o governo que assumir depois da queda de Maduro, explicou ao Estado que o processo não ocorreu por acaso. “Em primeiro lugar, houve um esforço para encontrar uma instituição doméstica venezuelana que pudesse ser legítima. E ela foi a Assembleia Nacional”, disse. “O segundo passo foi colocar as pessoas nas ruas e, depois, construir um apoio internacional”, disse o venezuelano ligado à Universidade Harvard. Segundo ele, o quarto capítulo da história será convencer os militares a abandonar Maduro. 

No Itamaraty, a ideia era acompanhar passo a passo o que estava ocorrendo em Caracas. O próprio chanceler indicou que “sentiria a temperatura” das primeiras horas dos protestos para avaliar se declararia o apoio oficial à oposição. O risco, segundo a chancelaria, era de que o protesto fosse seguido por violência. 

O Estado apurou que colombianos e outros países da região queriam ter declarado apoio a Guaidó logo que os protestos começaram. A decisão, porém, foi a de aguardar a sinalização americana, que todos sabiam que ocorreria na quarta-feira, 23. 

O anúncio do reconhecimento dos EUA ocorreu às 18 horas (15 horas em Brasília). Neste momento, o Fórum Econômico Mundial havia organizado uma reunião fechada entre líderes da ONU e os presidentes da região, entre eles Bolsonaro. O tema era a resposta à crise na Venezuela. Fontes que estiveram no evento, porém, confirmaram ao Estado que o tom de fato era já o de pensar a “nova Venezuela”. 

Quando a parte formal do encontro terminou, os presidentes passaram a se reunir de forma separada. Um dos envolvidos nas conversas era Eduardo Bolsonaro, filho do presidente. A decisão foi a de seguir o gesto americano e passar a dar apoio a Guaidó.

“Acompanhamos o processo em direção à democracia para que o povo venezuelano se libere”, declarou Iván Duque, presidente da Colômbia. Enquanto os líderes regionais faziam a declaração, membros da oposição venezuelana que estavam em Davos choravam e se abraçavam. 

Um jantar organizado em Davos para os presidentes latino-americanos também se transformou em celebração diante da nova situação venezuelana. Bolsonaro chegou até mesmo a elogiar Trump pela ajuda que ele prestava para a região. O governo do Uruguai, integrante do Grupo de Lima, se absteve, enquanto Bolívia e México mantiveram seu apoio a Maduro. 

Para o líder da oposição uruguaia, Juan Sartori, a opção pela abstenção “não representa o povo uruguaio”. “As esquerdas latino-americanas ainda mantêm uma certa aliança e eu disse hoje ao presidente Bolsonaro que lamentava a decisão do Uruguai”, disse Sartori, que também está em Davos. O brasileiro lhe respondeu com uma sugestão: “Vença as eleições e mude a posição do Uruguai”. 

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