Nadia Shira Cohen/The New York Times
Nadia Shira Cohen/The New York Times

Esperança e preocupação nos países que flexibilizam o confinamento devido ao coronavírus

Governos advertem população sobre possível volta de confinamento caso regras sejam desrespeitadas ou número de doentes com a covid-19 volte a crescer

Jason Horowitz, The New York Times, O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2020 | 04h00

ROMA - Na segunda-feira 4, usando uma viseira de Plexiglas, uma grande máscara branca e luvas de borracha azuis, Catia Gabrielli parecia pronta para qualquer coisa que surgisse no seu caminho, no momento em que a Itália, a título experimental, flexibilizou algumas das estritas regras de confinamento contra o coronavírus.

“Vejo muito movimento”, disse Catia, proprietária de uma livraria no centro histórico de Roma, preocupada com as pessoas à sua volta sem o uso de máscaras. “É muita gente”.

Essa mesma inquietação, junto com esperança, se manifestava por toda a Europa e outros lugares na segunda-feira, quando diversos países, como Alemanha, Espanha, Grécia, Bélgica, Lituânia, França, Nigéria e Líbano, começaram a afrouxar as restrições impostas para conter o aumento do contágio.

Mas em muitos lugares, esse relaxamento parece mais um experimento em tempo real para se saber como viver com o vírus. E embora a flexibilização varie de país para país, muitos líderes de governo deixaram claro que tudo pode ser fechado novamente - se os cidadãos se mostrarem muito imprudentes.

Em muitos países nem todas as lojas e indústrias foram autorizadas a retomar as atividades. A abertura de escolas foi seletiva, com salas de aula reconfiguradas ou mesmo inativas até o início do outono europeu, em setembro. As normas de distanciamento social continuam em vigor. O uso de máscaras é exigido. Bares, cafés e restaurantes, na maior parte, continuam fechados.

As autoridades italianas alertaram que qualquer afrouxamento das restrições será suspenso se os cidadãos não respeitarem as medidas de distanciamento social. E se as infecções aumentarem novamente, sobrecarregando os sistemas de saúde, as ordens de confinamento serão restabelecidas.

Novo fechamento 

“Nós vamos intervir e fechar a torneira”, disse o primeiro-ministro Giuseppe Conte, alertando os italianos para os perigos de uma nova subida da curva de infecções que o país trabalhou tanto para refrear. Na Itália, o vírus acarretou mais de 28 mil mortes.

O problema da flexibilização das restrições é que as autoridades não terão um sinal confiável das consequências por pelo menos duas semanas, que é o período de incubação do vírus. Portanto permanece o risco de que, furtivamente, ocorra um recrudescimento das infecções, uma nova onda tão ruim ou pior do que a primeira.

Especialistas em saúde pública, apesar de reconhecerem a necessidade de se encontrar um equilíbrio entre salvar vidas e o sustento das pessoas, têm alertado que abrir lojas e permitir que os cidadãos saiam de casa será mais difícil e perigoso do que mantê-los confinados.

Mesmo assim, a Índia autorizou a retomada de empresas, do transporte local e atividades como casamentos, em áreas com poucas ou nenhuma infecção. O Líbano reabriu bares e restaurantes. A Nigéria flexibilizou o confinamento na capital, Abuja, e em Lagos, a maior cidade do país, com mercados, lojas, centros de compras e setor da construção sendo reabertos.

Na Alemanha, que reportou 163.100 infecções e 6.692 mortes, de acordo com o Instituto Robert Koch, zoológicos, museus, cabeleireiros e barbearias abriram na segunda-feira pela primeira vez desde meados de março.

No domingo 3, 122 fiéis examinados previamente se reuniram na catedral de Colônia usando máscaras e se sentando à distância uns dos outros para a missa. Outras igrejas iniciaram os serviços sob restrições similares no final desta semana.

Alguns playgrounds abriram durante o fim de semana. “É um enorme alívio”, disse Katherin Bravo, que ajudava a filha de dois anos a descer de um escorregador. “Não é possível explicar para crianças porque não podem brincar aqui. Passeamos todos os dias e ela sempre pedia para vir brincar no escorregador, mas tínhamos de ir em frente”.

Na Espanha, onde mais de 25 mil pessoas morreram, pequenas empresas abriram na segunda-feira. O governo espera que o país retorne a uma “nova normalidade” no final de junho, permitindo que algumas áreas com menos contágio e hospitais menos saturados possam abrir mais cedo do que áreas mais infectadas.

Novas regras

Cristina Cros, que tem um pequeno salão de beleza em Barcelona, disse estar feliz em retornar ao trabalho depois de sete semanas de confinamento, mas que acha as novas regras “bem caóticas”.

Por exemplo, todas as clientes têm de manter uma distância de pelo menos dois metros uma da outra. A cabeleireira tem de limpar todo o material depois de atender cada cliente e também desinfetar o piso duas ou três vezes por dia. “Venho fazendo tanta limpeza quanto cortando o cabelo das pessoas” disse ela, usando máscara e luvas, como sua cliente.

Depois de 42 dias de confinamento, os gregos, na segunda-feira, puderam sair de casa sem um motivo autorizado e os salões de beleza, livrarias, lojas de roupas e outras pequenas varejistas reabriram. As autoridades do setor de transporte isolaram com cordões cada assento nos ônibus e vagões do metrô.

Mas mesmo que o país tenha registrado um número limitado de infecções, cerca de 2.626, e 150 mortes, restaurantes e bares continuarão fechados até meados de junho. Mas também na Grécia a abertura é acompanhada de advertências do governo. “Se continuamos observando o vírus numa trajetória de queda, contudo temos de ser duplamente cautelosos”, disse o primeiro ministro Kyriakos Misotakis.

A Polônia, que estabeleceu o confinamento em 14 de março, reabriu hotéis, centros de compras e áreas esportivas, como também alguns museus e galerias de arte.

Os jardins de infância e creches poderão abrir no final desta semana, embora novas diretrizes sanitárias e espaços de isolamento para casos suspeitos provavelmente levem a um retardamento de muitas reaberturas de atividades.

Estônia e Lituânia também começaram a suspender as restrições, como fez a Bélgica, onde o setor de construção retomou as atividades e empresas de serviços não essenciais - incluindo lojas de tecidos - tiveram permissão para reabrir.

Na segunda-feira, o presidente da França, Emmanuel Macron, pediu “calma” e “pragmatismo” à medida que o país se prepara para suspender as restrições de confinamento a partir de 11 de maio, e alertou que não se trata de uma volta à vida normal, mas de uma nova etapa”.

“É necessário conviver com o vírus”, disse Macron, afirmando que o confinamento não pode continuar para sempre porque isto causaria um enorme dano social e econômico. Mas, acrescentou, “a situação é de muito risco”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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