Esperança na visita de Obama

Há dois anos, o Hemisfério Ocidental esbanjava boa vontade. O presidente americano, Barack Obama, apertou a mão do venezuelano Hugo Chávez na Cúpula das Américas em Trinidad e Tobago, disse estar disposto a dialogar com o governo cubano e festejou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva como "o cara", mimo que o brasileiro levou com unção. Os vizinhos ao sul corresponderam, garantindo a Obama índices de aprovação maiores do que gozava em casa. Enterram-se de vez os anos bicudos da era George W. Bush. Pelo menos parecia assim.

MAC MARGOLIS, O Estado de S.Paulo

30 de janeiro de 2011 | 00h00

O flerte durou pouco. Após o massacre do Partido Democrata nas urnas em novembro, Obama hoje luta para reviver a economia dos Estados Unidos, resgatar a reforma da saúde pública, vencer a pantanosa guerra no Afeganistão e salvar sua carreira política.

Com tudo isso, a América Latina definhou na agenda de Washington. Será que a iminente chegada de Obama, que em março irá a El Salvador, Brasil e Chile, pode restaurá-la?

Momento nefasto. Parece consenso declarado. Nunca antes na história desse hemisfério houve momento mais nefasto do que a época de George W. Bush. Da invasão americana do Iraque à malfadada Área de Livre Comércio das Américas (Alca), as investidas americanas nas latitudes abaixo foram redondamente rejeitadas.

Nada como um novo governo para apagar o mal-estar. Melhor ainda se for de um carismático líder jovem, com sorriso franco e discurso multilateral. É de grande ironia, então, que o simpático Obama se guia agora pelo roteiro de seu ranzinzo antecessor, e o melhor negócio para as Américas seria levar a cabo justamente as iniciativas da era Bush.

Se o presidente Obama terá estofo para tanto são outros quinhentos. Considere a estranha política energética dos Estados Unidos. Obama foi louvado por anunciar incentivos para a produção de energia limpa. No entanto, o presidente ainda enfrenta uma batalha com agricultores americanos que no fim do ano passado foram presenteados pelo Congresso com mais um ano de subsídios parrudos, e insensatos, para produzir etanol à base de milho. Ou seja, mais um ano de barreiras ao econômico etanol brasileiro.

Comércio. No comércio, as perspectivas pioram. O Brasil e seus vizinhos talvez tivessem razão quando resistiram ao canto da Alca que, da forma proposta pelo governo de Washington, exigia abertura demais do lado de cá do balcão e prometia concessão de menos.

Mas com a Rodada Doha emperrada e o acordo entre Mercosul e a União Europeia travado desde 2004, a meta de consolidar o comércio livre e multilateral ficou mais distante. Restou o plano B, os arranjos país a país, solução promovida pela Casa Branca da era de George W. Bush, mas vetada pelo Congresso de maioria democrata, o partido de Obama.

Em seu Discurso sobre o Estado da União, que Obama pronunciou na terça-feira ao Congresso, ele até explicitou seu apoio ao acordo de comércio com Coreia do Sul. Mas nenhuma palavra foi pronunciada sobre os pactos com a Colômbia e o Panamá, ambos rascunhados no mandato de Bush, mas desde então atolados no Congresso, que precisa chancelá-los.

A muralha é de seus aliados, democratas e os sindicatos americanos, que lançam argumentos que soam razoáveis e até nobres, mas cheiram a corporativismo.

O mais frágil deles é a oposição dos operários americanos ao acordo colombiano. Sob a bandeira de solidariedade aos perseguidos colegas latinos, os americanos de macacão batem em qualquer gesto para abrir o comércio (condição em que perderiam competitividade).

Claro, a Colômbia ainda amarga os efeitos dos quase 40 anos de guerra civil. No entanto, a violência contra civis despencou na última década, até mesmo contra os sindicalistas (41 foram assassinados em 2010; em 2002 foram 190).

O presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, redobra os esforços para estancar o que resta da sangria, reprimindo a guerrilha esquerdista das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e os paramilitares de direita, e prendendo os políticos corruptos que os patrocinam, ao mesmo tempo em que estimula a economia colombiana e combate a pobreza. Dinamizar o comércio o ajudaria, mas o silêncio de Washington, onde mofa o acordo bilateral desde 2006, deixa sequelas.

Cansado de promessas, o mais fiel aliado dos Estados Unidos no continente sul-americano preveniu-se. Bogotá aprofunda seus laços com as economias latino-americanas e já assinou tratados bilaterais com o Canadá e a União Europeia, todas essas regiões que tiram proveito da melhoria de segurança colombiana que os Estados Unidos bancaram.

Se alguma coisa mudou de Bush para Obama é a América Latina, e para o melhor. De região problema, virou exemplo, um conjunto de países dotados, com pouquíssimas exceções, de democracias vibrantes e mercados em franca expansão. Foram-se até os tempos do velho rancor terceiro-mundista, que teve o antiamericanismo como seu mote. Pena que tenha avançado tão pouco a política americana para o seu próprio hemisfério.

É CORRESPONDENTE DA REVISTA "NEWSWEEK", COLUNISTA DO "ESTADO" E EDITA O SITE WWW.BRAZILINFOCUS.COM

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