'Espero que Lula se desculpe conosco'

Pablo Pacheco, jornalista e dissidente cubano libertado[br]Para opositor, presidente 'não foi cortês' ao comparar presos políticos de Cuba com detentos comuns do Rio e de SP

Andrei Netto, correspondente em Madri, O Estado de S.Paulo

15 de julho de 2010 | 00h00

Pablo Pacheco, de 40 anos, passou sete anos e quatro meses como preso político na Cuba de Fidel e Raúl Castro. Professor de Educação Física de formação e jornalista por opção, foi acusado de fazer "propaganda inimiga" ao criticar o regime castrista, Livre, enfim, em Madri, ele falou ao Estado.

Como foi a sensação de sair da prisão?

Incrível, incrível. Vim com minha mulher e meu filho. Parece que estou vivendo um sonho. Depois de sete anos e quatro meses, estar livre e encontrar a família... Imagine: meu filho tinha apenas 4 anos quando fui preso; hoje, é um homenzinho de 11. Não creio que exista homem mais feliz na Terra.

O que pensa dos países que não participaram ativamente das negociações para libertar os presos políticos em Cuba?

Veja, para mim, Luiz Inácio Lula da Silva era... é um homem que admiro muito. Ele cometeu um erro ao nos comparar com os prisioneiros comuns que vivem em São Paulo ou Rio de Janeiro. O crime que cometemos foi amar Cuba acima de tudo. Se dissesse que sua declaração não me decepcionou, seria um grande mentiroso. Mas não podemos esquecer o que Lula fez pelo Brasil e pelos brasileiros. Todos podem se equivocar. Talvez ele possa se desculpar conosco um dia, porque não temos nada a ver com os presos comuns de São Paulo ou Rio - mesmo que eles sejam pessoas normais, que cometeram erros em suas vidas. Respeito muito Lula. A América Latina precisa de mais "Lulas" e menos "Castros". Mas espero que se desculpe conosco, porque não foi consequente, não foi cortês.

O que pensa em fazer daqui para frente?

O que tenho em mente é escrever um livro a partir de um diário que pude manter clandestinamente na primeira prisão que passei.

Pretende ficar na Espanha?

Minha mãe e meu irmão vivem nos Estados Unidos. Em 2002 pedi ao Centro de Refugiados americano o status de refugiado político, por ser jornalista independente. Meu pedido foi negado. No ano seguinte, fui condenado a 20 anos de prisão. Sei que o governo dos Estados Unidos fez tudo o que pôde para nos libertar, mas em um momento podia ter feito algo para impedir que eu fosse preso, e não fez, não protegeu minha família. A Espanha fez tudo para nos libertar.

Tenho uma dívida de gratidão com o país. Minha mulher é médica. Creio que para ela seja mais fácil viver aqui do que nos Estados Unidos. Quero trabalhar durante o dia e escrever meus livros à noite.

Como vai se chamar o livro?

Tenho um que está quase pronto. Vai se chamar Amor Verdadeiro, porque será sobre o que se passou entre minha mulher e eu neste período de cárcere.

Como pretende lutar pela liberdade de seus colegas?

Embora esteja em liberdade, não estou celebrando nada. Enquanto meus irmãos continuarem na prisão, não há nada a celebrar. Todo o meu corpo, o meu ser, o meu pensamento está em Cuba, e reflito o tempo inteiro sobre o que posso fazer para que meu país seja democrático. Farei tudo para tirar meus amigos da prisão.

Mas como espera ajudar Cuba de Madri?

Há muitas formas de ajudar Cuba. Outros presos políticos que vieram antes de mim já ajudam. Sabemos, por exemplo, o que precisam os jornalistas independentes de Cuba. Podemos auxiliá-los. A imprensa tem um papel muito importante para que não volte a ocorrer uma outra onda repressiva como a de 2003. Nós, jornalistas, temos uma função especial.

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