Espião argentino ligado a caso Nisman passou por Brasil em fuga

Jaime Stiuso usou passaporte falso e viajou para os EUA; Ministério Público da Argentina emitiu 'alerta azul' para obter sua localização 

Rodrigo Cavalheiro, correspondente / Buenos Aires, O Estado de S. Paulo

07 Outubro 2015 | 12h52

BUENOS AIRES - A Interpol de Brasília avisou a unidade da organização em Buenos Aires que o espião Jaime Stiuso, ligado à investigação que conduzia o promotor Alberto Nisman, encontrado com um tiro na cabeça em 18 de janeiro, passou pelo Brasil antes de fugir para o EUA. A informação, divulgada nesta quarta-feira, 7, pela agência pública Telam, indica que ele voou de Porto Alegre para Miami em 19 de fevereiro com um passaporte italiano. O escritório da Interpol em Washington também foi avisado, segundo a Telam.

Trata-se de uma resposta à emissão contra o agente de um alerta azul, um pedido para localização de um indivíduo, feito pela mesma equipe do Ministério Público que Nisman liderava. O grupo investiga o atentado contra a Associação Mutual Israelita-Argentina em 1994, que matou 85. 

Considerado um arquivo vivo das últimas quatro décadas da cúpula do poder na Argentina, o ex-chefe de operações da extinta Secretaria de Inteligência do Estado (Side) não tem uma ordem de captura contra ele. Quatro dias antes de sair da Argentina, ele depôs sobre a morte de Nisman. Disse que recebeu uma ligação do promotor no dia 17 de janeiro, um dia antes de o corpo ser encontrado no banheiro do apartamento do promotor no bairro de Puerto Madero, mas o telefone estava em modo silencioso. O advogado de Stiuso, Santiago Blanco Bermúdez, afirmou que seu cliente saiu da Argentina para se proteger. Bermúdez considera ilegal a solicitação emitida pela Interpol de Buenos Aires para localizar o espião.

Em seu discurso na ONU, na semana passada, a presidente Cristina Kirchner acusou os EUA de protegerem o agente, sem mencionar seu nome. A crítica argentina e a falta de resposta dos americanos abriram uma crise diplomática entre os dois países. O chanceler argentino, Hector Timerman, disse não entender porque Washington colocava em risco a relação bilateral por um espião. 

Stiuso foi aposentado compulsoriamente pelo governo em dezembro, quando Nisman já preparava a denúncia em que acusava a presidente e parte da cúpula kirchnerista de encobrir altos funcionários iranianos considerados pela Justiça argentina autores do atentado, em troca de pactos comerciais com Teerã. A base da denúncia, feita quatro dias antes de sua morte e arquivada em maio, eram escutas feitas com auxílio do serviço de inteligência. Em seu depoimento, Stiuso disse que o governo sabia do conteúdo das gravações.

Após a morte de Nisman, o governo acusou Stiuso de enriquecimento ilícito, contrabando e de participar de uma operação para boicotar a investigação sobre o atentado. Não há, entretanto, nenhuma ordem de captura contra ele, que voltará à Argentina se quiser.

"Stiuso é a memória de tudo o que não se sabe sobre a Argentina. A repressão nos anos 70, a Operação Condor e toda a era democrática", disse ao Estado o sociólogo Carlos de Angelis, da Universidade de Buenos Aires. Stiuso trabalhou entre 1972 e dezembro na Side. Era agente de confiança de presidentes e foi colocado por Néstor Kirchner (2003-2007) para ajudar Nisman no caso Amia. 

Em dezembro, a presidenta desmantelou a cúpula da Side, da qual fazia parte Stiuso. Após a morte de Nisman, ela anunciou sua substituição por uma agência, para a qual foram selecionados vários integrantes do grupo La Cámpora, criado por Máximo Kirchner, filho de Cristina, e base militante do kirchnerismo desde que o movimento rompeu com a maioria dos sindicatos.

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