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Espião ligado a Nisman aceita depor sobre caso

Argentina revoga obrigação de guardar segredo profissional de agente do qual suspeita, um dos investigadores do caso Amia

Rodrigo Cavalheiro, de Buenos Aires / Correspondente, O Estado de S. Paulo

05 de fevereiro de 2015 | 16h12

(Atualizado às 20h30)

O espião mais procurado da Argentina, relacionado indiretamente pelo governo de Cristina Kirchner à morte do promotor Alberto Nisman, cedeu à pressão do governo e aceitou depor sobre o caso.

Antonio Jaime Stiuso deveria falar às 11 horas deesta quinta-feira, 5. em Buenos Aires à promotora Viviana Fein, que investiga a morte Nisman, encontrado com um tiro na cabeça no dia 18 em seu banheiro. O agente secreto não compareceu, alegando por meio de seu advogado não ter sido notificado.

Quando for oficialmente convocado, Stiuso falará com os investigadores, afirmou o advogado do espião, Santiago Blanco Bermúdez. “É uma obrigação como cidadão e ex-funcionário público”, disse o advogado à Rádio Vorterix. O espião teria pedido que sua identidade seja preservada e sua segurança, garantida.


Na noite de quarta-feira, a promotoria foi a três imóveis em nome do agente em Buenos Aires para notificá-lo, mas ele não foi encontrado. Segundo o setor de imigração argentino, o último registro sobre ele foi uma saída para o Uruguai no dia 8.

O chefe da Secretaria de Inteligência (Side), Oscar Parilli, afirmou ontem: “Por ordem da presidente, vamos livrar o senhor Stiuso de sua obrigação de guardar segredos desde 1972, quando entrou na Side, até o dia 5, quando se aposentou”, afirmou Parilli.

Stiuso, um personagem misterioso cujo rosto não é conhecido dos argentinos – apenas um rascunho circula na internet –, trabalhou na Side de dezembro de 1972 até o dia 5, quando se aposentou contra sua vontade.

“São 30 anos de democracia e Stiuso tem a ver com muito, não só com políticos, mas com empresários, meios de comunicação. Por isso, a presidente quer que se saiba toda a verdade e se conte tudo, de 1972 para cá”, afirmou o chefe da Side, organismo que será transformado em uma agência, medida anunciada por Cristina após a morte de Nisman. A presidente chegou a dizer que o promotor havia se matado, mas trocou sua versão por um “homicídio com o objetivo de prejudicá-la”.

Além de ser um arquivo vivo, por ter servido a todos os presidentes das últimas quatro décadas, Stiuso está diretamente ligado à investigação do atentado contra a Associação Mutual Israelita-Argentina (Amia) em 1994, que matou 85 e feriu mais de 300. Ele foi nomeado pelo então presidente Néstor Kirchner um dos principais investigadores, trabalhando em conjunto com Nisman na causa. “Por mais que o tenham aposentado, terá cuidado com o que fala, como qualquer profissional de inteligência. Seguramente pode comprometer vários governos, mas não acredito que o faça”, disse ao Estado o sociólogo e consultor político Ricardo Rouvier.

A presidente deu a entender que Stiuso, supervisor de uma grande operação de grampos telefônicos sobre o caso, estaria envolvido na morte de Nisman, mas não deu detalhes. O secretário-geral da presidência, Aníbal Fernández, disse que “sobram razões para ouvir Stiuso pois a relação entre os dois era estreitíssima”.

O corpo do promotor federal foi encontrado em seu apartamento no luxuoso bairro de Puerto Madero. No dia seguinte, ele detalharia no Congresso as acusações de que Cristina havia ajudado a proteger autoridades iranianas ligadas pela Justiça argentina ao ataque terrorista.

A investigação detectou uma ligação de Nisman na véspera de sua morte para um número que seria do agente secreto. O advogado do espião disse que ele tem mais de cem números de celular e ele não poderia garantir se a conversa ocorreu. Em dezembro, Stiuso disse em uma rara entrevista que qualquer pessoa poderia ter seu número, “exceto uma”, sem deixar claro se falava de uma ruptura com Nisman. O afastamento de Stiuso da Side foi anunciado depois dessa entrevista. 

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