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Espião ligado a Nisman foge da Argentina

Horacio Stiuso sai do país após ser denunciado por contrabando; ele disse que governo conhecia conteúdo de escutas que comprometeriam Cristina

RODRIGO CAVALHEIRO, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2015 | 02h01

O espião Horacio "Jaime" Stiuso, que trabalhou com o promotor Alberto Nisman no caso Amia, fugiu da Argentina após entrar em confronto aberto com o kirchnerismo. Um dia depois de o governo denunciá-lo por contrabando, conheceram-se detalhes de seu depoimento sobre a morte de Nisman. Segundo o agente, o governo conhecia o teor de escutas que são a base da denúncia contra a presidente Cristina Kirchner.

Nisman acreditava que as gravações provavam a existência de um plano liderado pela presidente para proteger altos funcionários iranianos que, segundo a Justiça, são os responsáveis pelo atentado contra a Associação Mutual Israelita-Argentina (Amia). O ataque matou 85 e feriu mais de 300 em 1994.

Nisman morreu no dia 18, com um tiro na cabeça, quatro dias depois de fazer essa denúncia, que envolve ainda o chanceler Héctor Timerman e outros dirigentes kirchneristas. Nisman estava convencido de que o grupo tinha assinado um pacto com o Irã para permitir que os acusados fossem ouvidos em Teerã, em troca de acordos comerciais.

"Stiuso é a memória viva de tudo o que não se sabe sobre a Argentina. A repressão nos anos 70, a Operação Condor e toda a era democrática", disse ao Estado o sociólogo Carlos de Angelis, da Universidade de Buenos Aires. Stiuso trabalhou entre 1972 e dezembro na Secretaria de Informação (Side). Era agente de confiança dos presidentes e foi colocado por Néstor Kirchner (2003-2007) para ajudar Nisman no caso Amia. "Houve um acordo do governo com Stiuso até um momento em que ele começa a trabalhar com outra lógica, de cercar a presidente", avalia De Angelis.

Segundo o governo, Stiuso foi o mentor da denúncia que Nisman deveria detalhar no Congresso no dia seguinte à sua morte. O governo insinuou que a morte do promotor é uma tentativa de desestabilização do governo, na qual Stiuso tem participação.Em dezembro, o agente foi compulsoriamente aposentado.

Ontem, o advogado do espião, Santiago Blanco Bermúdez, afirmou que ele saiu do país por temer por sua vida. "Stiuso preferiu recusar a escolta oferecida pelo governo. Achou mais seguro ficar sozinho do que com gente em que não poderia confiar", disse ao canal TN, do Grupo Clarín. "Stiuso foi surpreendido pelo conteúdo e o momento da denúncia de Nisman, feita durante as férias."

Na terça-feira o chefe da Side, Oscar Parrilli, apresentou denúncia contra Stiuso e outros agentes por "manobras de contrabando e evasão fiscal". Os críticos do governo questionam porque a acusação só ocorreu agora. A ligação do serviço secreto com contrabando foi denunciada pelo jornal Clarín em 2013, sem reação semelhante do governo.

O conteúdo do depoimento de Stiuso foi detalhado ontem pelos jornais La Nación e Página 12. Stiuso disse que seus dois superiores imediatos na época sabiam do conteúdo das escutas. Ambos eram funcionários de confiança de Néstor Kirchner e de Cristina. A investigação indica que Nisman, na véspera de morrer, ligou várias vezes para números em nome de Stiuso. O espião disse que não atendeu porque seu telefone estava no modo silencioso, para evitar o assédio dos jornalistas. Em dezembro, a presidenta desmantelou a cúpula da Side. Após a morte de Nisman, anunciou sua substituição por uma agência, cuja formação seria oficializada nesta madrugada pelo Congresso.

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