Natacha Pisarenko/AP
Natacha Pisarenko/AP

Espião ligado ao caso Amia usa Brasil para escapar

Ex-agente argentino que colaborava com promotor Nisman, encontrado morto em janeiro, partiu de Porto Alegre para Miami

Rodrigo Cavalheiro, correspondente, O Estado de S.Paulo

08 Outubro 2015 | 02h01

BUENOS AIRES - O espião argentino Jaime Stiuso, ligado à investigação que conduzia o promotor Alberto Nisman, encontrado com um tiro na cabeça em 18 de janeiro, passou pelo Brasil antes de fugir para o EUA. A Interpol de Brasília avisou a unidade da organização em Buenos Aires que ele voou de Porto Alegre para Miami em 19 de fevereiro, com um passaporte italiano.

Trata-se de uma resposta à emissão contra o agente de um alerta azul, um pedido para localização de um indivíduo, feito pela mesma equipe do Ministério Público que Nisman liderava. O grupo investiga o atentado contra a Associação Mutual Israelita-Argentina (Amia) em 1994, que matou 85. "O causador partiu de Porto Alegre com destino à cidade de Miami, Estados Unidos, na data de 19/02/2015, identificando-se naquele momento com o passaporte italiano número AA3441362", informou a Interpol brasileira. O escritório da polícia internacional em Washington também foi avisado, segundo a agência pública argentina Télam.

Stiuso fazia frequentes viagens ao Uruguai, seu primeiro refúgio quando, após a morte de Nisman, surgiram informações sobre o grau de colaboração que ambos tinham na investigação do atentado. É provável que ele tenha chegado a Porto Alegre por terra, já que o Uruguai não registrou sua entrada ou saída em avião.

Stiuso é considerado um arquivo vivo das últimas quatro décadas da cúpula do poder na Argentina, o ex-chefe de operações da extinta Secretaria de Inteligência do Estado (Side). Quatro dias antes de sair da Argentina, ele testemunhou sobre sua relação com Nisman. Disse que recebeu uma ligação do promotor em 17 de janeiro, um dia antes de o corpo ser encontrado no banheiro do apartamento no bairro de Puerto Madero, mas o telefone estava em modo silencioso. O advogado de Stiuso, Santiago Blanco Bermúdez, afirmou que seu cliente saiu da Argentina para se proteger.

Bermúdez considera ilegal a solicitação emitida pela Interpol de Buenos Aires para localizar o espião.

Em seu discurso na ONU, na semana passada, a presidente Cristina Kirchner acusou os EUA de protegerem o agente. A crítica argentina e a falta de resposta americana abriram uma crise diplomática entre os dois países. O chanceler argentino, Héctor Timerman, disse não entender por que Washington colocava em risco a relação bilateral por um espião.

Stiuso foi aposentado compulsoriamente pelo governo em dezembro, quando Nisman já preparava a denúncia na qual acusaria a presidente e parte da cúpula kirchnerista de acobertar altos funcionários iranianos considerados pela Justiça argentina autores do atentado, em troca de pactos comerciais com Teerã. A base da denúncia, feita quatro dias antes de sua morte e arquivada em maio, eram escutas feitas com auxílio do serviço de inteligência. Em seu depoimento, Stiuso disse que o governo sabia do conteúdo das gravações.

Após a morte de Nisman, o governo acusou Stiuso de enriquecimento ilícito, contrabando e de participar de uma operação para boicotar a investigação sobre o atentado. Não há, entretanto, nenhuma ordem de captura contra ele, que voltará à Argentina se quiser.

"Stiuso é a memória de tudo o que não se sabe sobre a Argentina. A repressão nos anos 70, a Operação Condor e toda a era democrática", disse ao Estado o sociólogo Carlos de Angelis, da Universidade de Buenos Aires. Stiuso trabalhou entre 1972 e dezembro na Side. Era agente de confiança de presidentes e foi colocado por Néstor Kirchner (2003­2007) para ajudar Nisman no caso Amia.

Em dezembro, a presidente desmantelou a cúpula da Side, da qual Stiuso fazia parte. Após a morte de Nisman, ela anunciou a substituição da secretaria por uma agência, para a qual foram selecionados vários integrantes do grupo La Cámpora, criado por Máximo Kirchner, filho de Cristina. Esse bloco de jovens forma a base militante do kirchnerismo desde que o movimento rompeu com a maioria dos sindicatos.

Mais conteúdo sobre:
Nisman Argentina

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.