Espião que delatou rede agiu na Suíça

Sob proteção diplomática, Snowden participou de operações para saber quantos cidadãos dos EUA tinham contas secretas no país

JAMIL CHADE , CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

12 Junho 2013 | 02h02

Um escritório cercado por um jardim perfeitamente talhado, num prédio "ecológico" e alimentado integralmente por energia solar. Nos corredores, cartazes sobre o papel dos EUA na defesa dos direitos humanos. No bolso, um passaporte diplomático da missão americana na ONU.

Essa era - pelo menos nas aparências - a vida de Edward Snowden em Genebra entre 2007 e 2009, quando foi enviado como agente da CIA para a representação americana a poucos passos de distância da entrada das Nações Unidas.

Suas revelações estão causando comoção na Suíça, que agora exige explicações do governo americano sobre o fato de terem apresentado um espião da CIA como um diplomata. Em sua declaração ao jornal The Guardian, Snowden afirmou que a primeira decepção que teve em relação à forma de o governo americano operar ocorreu quando era um agente secreto da CIA em Genebra, trabalhando no sistema de informática que lhe deu acesso a documentos sigilosos. Mas, naquele momento, optou por não fazer revelações.

Snowden vivia em Genebra em um apartamento na sofisticada Quai de Seujet, à beira do Rio Ródano e com uma vista privilegiada sobre os bancos genebrinos.

Não seria por acaso. Snowden afirma que teve a incumbência de se aproximar de um banqueiro suíço, criar uma situação crítica para o funcionário da instituição financeira e o convencer a colaborar com o governo americano, repassando dados de contas secretas.

A meta era a de recrutar um banqueiro suíço justamente para colaborar no esforço americano de saber quantos cidadãos dos EUA tinham contas secretas na Suíça e formas de prender eventuais banqueiros que viajassem para as cidades americanas.

Snowden revelou que isso foi obtido graças a um esquema que mais se pareceria com um filme. O banqueiro escolhido passou a ser alvo do ex-agente da CIA, com convites para jantares e festas. Num desses encontros, o banqueiro foi levado a ficar bêbado e, depois, incentivado a dirigir para casa. No trajeto, dois supostos policiais o parariam e ameaçariam o banqueiro com uma pena de prisão.

O problema é que os policiais eram agentes da CIA, numa operação montada. Nesse momento entraria em ação Snowden, que se apresentou como seu amigo, o ajudou a sair da situação e uma aliança acabou formada entre os dois. O banqueiro acabaria colaborando para o governo americano.

"Muito do que eu vi em Genebra me frustrou sobre como meu governo funciona e o impacto que tem no mundo", disse o ex-agente em sua declaração ao jornal britânico. "Percebi que eu fazia parte de algo que fazia mais mal que bem."

Na missão americana, a ordem é de simplesmente não abrir a boca sobre o caso do ex-funcionário. Mas outros ex-empregados do local disseram ao Estado que Snowden de fato passou por Genebra. A revelação não poderia ter ocorrido num momento mais crítico na relação entre EUA e Suíça. Os dois países estavam prestes a assinar um acordo de transmissão de informações financeiras e o governo em Berna vinha insistindo que o tratado poderia ajudar a pôr um fim às acusações mútuas sobre lavagem de dinheiro.

Ontem, porém, uma comissão do Parlamento suíço que examinaria o acordo rejeitou o tratado. Apesar de insistir que a rejeição não tinha nenhuma relação com as revelações de Snowden, os deputados foram taxativos em qualificar o comportamento da diplomacia americana de "imperialista". O mal-estar no governo suíço ficou evidente. A chancelaria pediu "esclarecimentos" ao governo americano em relação às informações e insistiu que as leis que regem as relações diplomáticas "precisam ser respeitadas".

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