REUTERS/Kevin Lamarque
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Espião russo da CIA era próximo de Putin e revelou segredos por décadas

Washington retirou da Rússia a fonte que confirmou papel de Putin em interfência na campanha eleitoral de 2016

Julian Barnes, Adam Goldman e David Sanger/ New York Times, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2019 | 12h00

Décadas atrás, a Agência de Inteligência Americana (CIA, na sigla em inglês) recrutou e cultivou cuidadosamente um funcionário russo de nível médio que começou a avançar rapidamente pelas fileiras governamentais. Os espiões americanos encontraram ouro: uma fonte de longa data que conseguiu uma posição influente e com acesso ao nível mais alto do Kremlin.

Quando as autoridades americanas começaram a perceber que a Rússia estava tentando sabotar as eleições presidenciais de 2016, o informante se tornou um dos ativos mais importantes - e altamente protegidos - da CIA.

Mas quando as autoridades de inteligência revelaram a gravidade da interferência eleitoral da Rússia com detalhes incomuns no final daquele ano, ficou evidente que a fontes da CIA estava no Kremlin.

As autoridades de inteligência dos EUA ficaram preocupadas com a segurança do informante, e tomaram a decisão, no final de 2016, de oferecer a extração da fonte da Rússia. 

O informante se recusou. Ele citou preocupações com a família - provocando consternação na sede da CIA e semeando dúvidas entre alguns funcionários americanos de contra-inteligência sobre a confiabilidade do informante. Mas a agência o pressionou novamente, meses depois, e o informante concordou.

Fim das informações sobre o Kremlin

A mudança pôs fim à carreira de uma das fontes mais importantes da CIA Também cegou efetivamente as autoridades americanas de inteligência para a visão de dentro da Rússia, enquanto buscavam pistas sobre a interferência do Kremlin nas eleições de meio de mandato, em 2018, e sobre a eleição presidencial do próximo ano.

Na segunda-feira, 10, a CNN informou pela primeira vez a extração do informante. Outros detalhes - incluindo o histórico da fonte com a agência, a oferta inicial de retirada em 2016 e a cascata de dúvidas provocadas pela subsequente recusa do informante - não havia sido relatadas anteriormente. 

O New York Times obteve esses dados em entrevistas nos últimos meses com funcionários atuais e ex-funcionários que falaram sob a condição de que seus nomes não fossem revelados.

Os funcionários não divulgaram a identidade do informante ou o novo local, ambos segredos bem guardados. A vida da pessoa continua em perigo, disseram autoridades atuais e ex-autoridades, apontando para as tentativas de Moscou no ano passado de assassinar Sergei Skripal, um ex-oficial da inteligência russa que se mudou para o Reino Unido como parte de uma importante troca de espiões em 2010.

O informante de Moscou foi fundamental para a conclusão mais explosiva da CIA sobre a campanha de interferência da Rússia: que o presidente Vladimir Putin ordenou e orquestrou as interferências ele mesmo. 

A fonte foi a mais confiável visão do governo americano sobre o pensamento e as ordens de Putin, e também foi fundamental para a avaliação da CIA de que o presidente russo favoreceu afirmativamente a eleição de Donald Trump e ordenou pessoalmente a invasão dos computadores do Comitê Nacional Democrata.

Segundo pessoas familiarizadas com o assunto, o informante estava fora do círculo mais próximo de Putin, mas o via regularmente e tinha acesso às decisões de alto nível do Kremlin - tornando a fonte um dos ativos mais valiosos da agência.

Lidar e administrar um informante de Moscou é extremamente difícil por causa dos vários níveis de contra-inteligência de Putin. Os russos são conhecidos por tornar a vida de espiões estrangeiros miserável, seguindo-os constantemente e, às vezes, atrapalhando-os. Ex-agentes de campo da CIA descrevem os emaranhados como “regras de Moscou”.

Interferência da Rússia na eleição dos EUA

As informações da fonte eram tão delicadas e a necessidade de proteger sua identidade tão importante que o diretor da CIA à época, John Brennan, manteve as informações do agente fora do briefing diário do presidente Barack Obama em 2016. Em vez disso, Brennan enviou relatórios de inteligência separados, muitos baseados nas informações da fonte, em envelopes selados especiais para o Salão Oval. .

As informações em si eram tão importantes e potencialmente controvertidas que as altas autoridades da CIA ordenaram uma revisão completa do registro do informante. Os funcionários tiveram de revisar as informações que a fonte havia fornecido anos antes para garantir que elas se mostraram precisas.

Embora a revisão tenha sido aprovada, a rejeição da oferta de retirada da Rússia pela fonte levantou dúvidas entre alguns funcionários de contra-inteligência. Eles se perguntavam se o informante havia se tornado um agente duplo, traindo secretamente os americanos. 

Isso quase certamente significaria que algumas das informações que o informante forneceu sobre a campanha de interferência russa ou as intenções de Putin teriam sido imprecisas.

Alguns agentes tinham outros motivos para suspeitar que a fonte poderia ser um agente duplo, segundo dois ex-funcionários, mas eles se recusaram a explicar mais.

Outros oficiais atuais e ex-funcionários que reconheceram as dúvidas disseram que foram deixados de lado quando a fonte concordou em ser extraída pela CIA uma segunda vez.

Deixar para trás o país natal é uma decisão importante, disse Joseph Augustyn, ex-membro sênior da CIA, que administrou o centro de reassentamento de desertores da agência. 

Muitas vezes, os informantes mantiveram o trabalho de espionagem em segredo de suas famílias. “É uma decisão muito difícil de tomar, mas é a decisão deles", disse Augustyn. "Houve momentos em que as pessoas não saíram quando sugerimos fortemente que deveriam."

A decisão de extrair o informante foi motivada "em parte" por causa de preocupações de que Trump e seu governo haviam manipulado mal a inteligência, informou a CNN. Mas ex-funcionários da inteligência disseram que não havia evidências públicas de que Trump colocasse em risco a fonte diretamente.

Trump foi primeiro a receber as informações sobre interferência russa, incluindo material do informante, duas semanas antes de sua posse. Uma porta-voz da CIA que falou à CNN disse que era uma "especulação equivocada” dizer que o mau uso das informações cedidas pela fonte por Trump teria levado à extração.

Trump e a retirada do espião russo

Alguns ex-funcionários da inteligência disseram que as reuniões a portas fechadas do presidente americano com Putin e outras autoridades russas, além de postagens no Twitter sobre assuntos delicados de inteligência, semearam preocupações entre fontes estrangeiras.

"Temos um presidente que, diferente de qualquer outro presidente da história moderna, está disposto a usar inteligência sensível e ultra-secreta da maneira que achar melhor", disse Steven L. Hall, ex-agente da CIA que liderou operações da agência na Rússia. “Ele faz isso na frente dos nossos adversários. Ele faz isso por Twitter. Estamos em águas desconhecidas.”

Mas o governo americano  indicou que a fonte já existia muito antes de Trump assumir o cargo, primeiro acusando formalmente a Rússia de interferência em outubro de 2016 e depois quando funcionários da inteligência levantaram o sigilo de parte de sua avaliação sobre a campanha de interferência em 2017, e revelaram o envolvimento de Putin na sabotagem das eleições e as possíveis fontes da CIA para a avaliação.

No mês seguinte, o Washington Post relatou que as conclusões da CIA se baseavam em “fontes profundamente ligadas ao governo russo". E o New York Times publicou posteriormente artigos que divulgavam detalhes sobre a fonte.

As notícias na primavera e no verão de 2017 convenceram os funcionários do governo dos Estados Unidos de que precisavam atualizar e reviver seu plano de extração, de acordo com pessoas familiarizadas com o assunto.

A extração garantiu que o informante estivesse em uma posição mais segura e recompensado por uma longa carreira no serviço aos Estados Unidos. Mas teve um grande custo: deixou a CIA às cegas para entender o que estava acontecendo dentro das fileiras mais altas do Kremlin.

A agência há muito tempo luta para recrutar fontes próximas a Putin, um ex-oficial de inteligência profundamente desconfiado das operações da CIA. Ele confia apenas em um pequeno grupo de pessoas e possui rigorosa segurança operacional, evitando as comunicações eletrônicas.

James Clapper Jr., ex-diretor de inteligência nacional que deixou o cargo no final do governo Obama, disse que não tinha conhecimento da decisão de realizar uma extração. Mas, disse ele, havia poucas dúvidas de que as revelações sobre a extração “tornariam o recrutamento de ativos na Rússia ainda mais difícil do que já é”.

 

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