Espiões iludiram EUA sobre arsenal de Saddam, diz BBC

Reportagem afirma que iraquianos a serviço da CIA e MI6 fabricaram informações sobre armas químicas e biológicas

LONDRES, O Estado de S.Paulo

19 de março de 2013 | 02h03

A emissora britânica BBC exibiu na noite de ontem uma reportagem revelando que dois espiões iraquianos foram peças-chave no fornecimento de informações falsas aos EUA e Grã-Bretanha de que o regime de Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa. Os arsenais químicos e biológicos do Iraque - que simplesmente inexistiam - foram o argumento usado pelos governos de George W. Bush e Tony Blair para ir à guerra.

O programa Panorama afirma que as agências de inteligência americana (CIA) e britânica (MI6) foram informadas, meses antes do início da operação militar no território iraquiano, de que o governo de Saddam não contava com esse tipo de armamento. Mas, ao mesmo tempo, fontes de dentro do regime de Bagdá afirmavam "ter visto" os arsenais proibidos. Os serviços de informação se ativeram às confirmações e desprezaram os sinais no sentido contrário.

Segundo a BBC, "o mais notório espião que enganou o mundo" foi Rafid Ahmed Alwan al-Janabi, que abandonou o governo de Saddam em 1999, fugindo para a Alemanha, onde afirmou que era engenheiro químico e montava laboratórios móveis de fabricação de armamento biológico.

Na época, as afirmações de Curveball - como o informante era chamado pela CIA e o MI6 - foram corroboradas por um outro espião, ex-integrante da inteligência iraquiana. O major Mohamed Harith afirmava que os laboratórios ambulantes de fabricação de armamento biológico tinham sido ideia sua.

Uma outra fonte de inteligência, de codinome Red River, disse ter visto tanques de fermentação sobre caminhonetes, sem afirmar, porém, que o equipamento seria usado para fabricar armas biológicas. Em 2011, Curveball admitiu ao jornal britânico The Guardian que as informações que ele havia fornecido ao Ocidente eram falsas.

Segundo a BBC, porém, em setembro de 2002 - seis meses antes da invasão do Iraque e uma semana antes do dossiê britânico afirmando que Saddam tinha armas químicas ser publicado -, o chefe da CIA em Paris na época, Bill Murray, conversou com o então ministro das Relações Exteriores iraquiano, Naji Sabri, por meio de um intermediário.

O chanceler de Saddam teria dito ao americano que o governo do ditador não tinha "virtualmente nada" em armas de destruição em massa. Em um comunicado, porém, Sabri afirmou que a reportagem exibida ontem pela BBC é "totalmente inventada".

Segundo o Panorama, três meses antes da invasão americana ao Iraque, um funcionário do MI6 encontrou-se com o então chefe de inteligência do país do Oriente Médio, Tahir Habbush al-Tikriti, que também teria negado a existência dos arsenais.

"Houve circunstâncias em que as pessoas foram enganadas ou enganaram a si mesmas em todos os momentos (anteriores à invasão ao Iraque)", afirmou o lorde Robin Butler, secretário de gabinete de três premiês britânicos - entre eles, Tony Blair - que conduziu uma investigação sobre os dados de inteligência relacionados à ocupação do território iraquiano, em 2004. De acordo com a BBC, o chefe do MI6 na época, Richard Dearlove, afirmou que as informações das fortes iraquianas que confirmariam armas químicas no Iraque não eram confiáveis.

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