Espiões ressurgem no xadrez diplomático

Nas últimas semanas, vários casos evocaram métodos de inteligência da era da Guerra Fria

Denise Chrispim Marin e Gustavo Chacra, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2010 | 00h00

Tão atraente quanto nos velhos tempos da Guerra Fria, a espionagem ressurgiu nos EUA em episódios que mostram que os antigos métodos sobrevivem enquanto as ameaças avançam para o terreno da informática. A KGB da ex-URSS deu lugar para inimigos múltiplos que figuram também entre parceiros de Washington. Nenhum deles é mais temido que a China e seu vasto empenho para absorver segredos por eletrônicos.

Os órgãos de inteligência americanos não têm dúvidas de que a China está por trás das intromissões nos sistemas mais seguros dos EUA nos últimos anos. O aparato chinês de espionagem cibernética ganhou prioridade em 2004, quando o presidente Hu Jintao determinou que fosse modernizado. Os investimentos anuais nessa área atingiram US$ 100 bilhões e envolveram a aquisição de empresas privadas, hoje em mãos do Exército.

Nesse processo, o complexo militar da Província de Hainan, uma ilha no sul da China, ampliou seu escopo de ação para a área de espionagem cibernética, com o auxílio de um satélite. Se a regra é espionar e ser espionado, no ano passado, a Marinha chinesa interceptou o navio Impeccable, da Marinha americana, a 75 milhas do local.

De acordo com dados publicados no McClatchy Newspapers por Richard Parker, especialista no tema, o custo para os EUA de combater a espionagem chinesa supera US$ 200 bilhões ao ano. No primeiro semestre de 2009, o Departamento de Defesa americano sofreu pelo menos 43,8 mil tentativas de bisbilhotagem informática da China.

Paralelamente, as velhas práticas de espionagem continuam tão presentes como há 50 anos. No mês passado, os EUA receberam de volta 14 de seus espiões que estavam presos na Rússia. A libertação foi o resultado de um acordo de troca de presos - o FBI havia encarcerado 12 pessoas que usavam práticas rudimentares de espionagem no país. Há dez dias, a CIA libertou o cientista iraniano Shahram Amiri, aparentemente depois de constatar que ele pouco poderia contribuir. Amiri acusou os EUA de o terem sequestrado em junho de 2009. Ao retornar a Teerã, foi aclamado pelo governo iraniano como seu espião.

Assim como jovens americanos se deixaram aliciar por grupos extremistas islâmicos nos últimos anos, pessoas maduras se revelaram espiãs de alto calibre. Neste mês, Walter Kendall Myers, um analista da área de inteligência e pesquisa do Departamento de Estado, foi condenado a quase 7 anos de prisão. Nos 30 anos de sua carreira, ele havia passado a Cuba informações secretas dos EUA.

"Na época da Guerra Fria a espionagem exigia dinheiro, dominar o idioma russo e conhecer as pessoas-alvo", afirmou Steven Clemons, diretor do Programa sobre Estratégia Americana da Fundação Nova América. "Hoje tudo é mais complexo, diversificado e fragmentado. Não basta falar outra língua, não há clareza sobre o que é ou não ameaça e de onde ela vem, e a espionagem envolve também empresas privadas e organizações não-governamentais", completou.

Boa parte desse oceano de dúvidas explica a monstruosa máquina levantada pelo governo de George W. Bush depois dos ataques terroristas do 11 de Setembro. Uma série de três reportagens publicadas nesta semana pelo Washington Post mostrou que essa estrutura envolve 1.271 organismos governamentais e 1.931 privados - dos quais 792 da área de tecnologia da informação.

Concentrado especialmente em Washington, esse aparato está espalhado em 33 edifícios e emprega 854 mil pessoas, todas munidas com os salvo-condutos concedidos a agentes secretos da área de segurança. De acordo com a reportagem, longe de resguardar o país, a magnitude dessa máquina expõe o país a vulnerabilidades na área de segurança. A duplicação de tarefas foi um dos problemas notados, além da produção de material em escala muito maior do que a capacidade de absorção das informações. "A obsessão pela informação torna a atividade de inteligência impraticável e mina a própria segurança do país. Esse é um problema que temos hoje", afirmou Clemons. "Eu costumava ser mais otimista em relação à organização e ao foco da inteligência americana."

FORA DA SOMBRA

Shahram Amiri - No dia 12, cientista iraniano entrou na embaixada do Paquistão em Washington e pediu para ser repatriado. Afirmou que fora sequestrado pela CIA e trazido aos EUA. Foi recebido como herói.

Walter Kendall Myers - Aos 73 anos, analista aposentado do Departamento de Estado foi condenado a 81 meses de prisão no dia 16. Myers repassara informações a Cuba.

"Vizinhos" russos - FBI prendeu 12 espiões a serviço da Rússia. Viviam como "americanizados" pacatos em bairros da classe média.

"Pearl Harbour virtual" - Google e outras corporações americanas na China acusam hackers locais de invadir seus sistemas e acessar dados de clientes. O suposto assalto virtual seria a maior invasão da história da espionagem digital

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