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Gilles Lapouge
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Espiões, Snowden, asilos

Indignação na França, na Alemanha. Inquietação dos senhores da Comissão Europeia, de Bruxelas. Impressão angustiante de que o homem agora habita um universo sem portas nem proteção, que as paredes são transparentes, que cada um de nós está nu, da manhã até a noite, sob o olhar de misteriosos "extraterrestres" acantonados em Bluffdale, no Estado americano de Utah, e na Grã-Bretanha, em Bude, na costa da Cornualha ou em Cheltenham, no centro da Inglaterra.

Gilles Lapouge,

02 de julho de 2013 | 02h05

Crescem na Europa a cólera e a indignação. A Alemanha (na qual o jornal Der Spiegel ateou fogo à pólvora, após o Guardian, de Londres, com informações sobre Edward Snowden, que enfrenta acusações nos EUA por detalhar o programa e acaba de pedir asilo político à Rússia) ficou furiosa ao saber que a Agência de Segurança Nacional americana (NSA) espiona mensalmente 500 milhões de telefones, e-mails, SMSs. Na França, 8 milhões de comunicações por dia vão parar nas "grandes orelhas" americanas; na Itália, são 4 milhões.

Os EUA estão na defensiva. Não respondem ou dizem que vão responder. Bruxelas (a cidade mais ouvida do mundo), Berlim, Roma e Paris esperneiam. E como o escândalo estoura na véspera das negociações para preparar um "tratado" de livre comércio, é natural que algumas vozes desejem a supressão da reunião sobre o tema (prevista para o dia 8).

O caso de espionagem é tão complexo que é impossível relatá-lo no seu todo. Algumas observações: os EUA não estão sozinhos. Eles dispõem de um auxiliar eficaz, um país da União Europeia, a Inglaterra. O jornalista escocês Duncan Campbell, que teve papel de destaque na denúncia da espionagem internacional no caso Echelon, em 1988, fornece agora detalhes impressionantes. As escutas realizadas pelos EUA e a Inglaterra são antigas. Elas foram criadas após a 2.ª Guerra por tratados secretos entre Londres e Washington, conhecidas inicialmente pelo nome Ukusa (de United Kingdom United States Communications Intelligence Agreement) ou sob o nome mais familiar de Fives Eyes.

Para entregar licenças para a instalação dos cabos submarinos que chegam à costa britânica, Londres exige que esses cabos comportem duas conexões, uma para conectar o telefone e a internet normais, outra para se conectar secretamente aos centos de inteligência instalados em Bude ou Cheltenham. Por outro lado, uma base americana de escuta está implementada em Menwith, em Yorkshire, especializada na escuta de conversas via satélite.

Os EUA justificam o programa Prism pela necessidade da luta contra o terrorismo. Mas essas orelhas monumentais foram incapazes de prever ataques terroristas. A convicção na Europa é que sua missão é a espionagem industrial. Razão a mais para mostrar desconfiança com o "tratado de livre comércio" EUA-UE.

É inevitável e banal extasiar-se com a visão penetrante do escritor britânico George Orwell que descreveu em seu romance 1984 o sistema de espionagem universal das sociedades de hoje. Foi preciso surgir a internet, com suas declinações do Google ao Facebook. Eis que entramos na espionagem fluida, volátil, transparente, invisível, silenciosa e elusiva. Mas a moderna tecnologia fornece também instrumentos para quebrar essa espionagem. Bastou a Edward Snowden, e antes ao australiano Julian Assange, ter um computador portátil, um CD e uma chave USB. Mas também coragem porque eles tocaram no segredo dos segredos. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK * GILLES LAPOUGE É CORRESPONDENTE EM PARIS

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