Espionagem agora se concentra nos aparelhos, não na web

Espionagem agora se concentra nos aparelhos, não na web

Modernas criptografias levaram a CIA a buscar acessos mais vulneráveis à vigilância

Craig Timberg, Ellen Nakashima e Elizabeth Dwoskin / WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

07 de março de 2017 | 22h00

As revelações sobre as poderosas ferramentas do governo americano para hackear, deixando potencialmente sujeitos a vigilância casas e bolsos de bilhões de usuários pelo mundo, mostram como uma grande variedade de aparelhos de uso diário pode ser modificada para espionar os donos. Televisores, smartphones e veículos conectados à internet são vulneráveis à espionagem da CIA, indicaram os documentos do WikiLeaks.

As possibilidades descritas incluem gravar sons, imagens e mensagens privadas de texto de usuários, mesmo com a utilização de aplicativos criptografados. Já os veículos são vulneráveis a controle remoto por hackers, o que permite “assassinatos quase indetectáveis”.

No caso de uma ferramenta chamada “Weeping Angel”, feita para atacar a SmartTV da Samsung, o WikiLeaks disse: “Após a invasão, o Weeping Angel põe o televisor-alvo no modo Fake-Off (falsamente desligado), levando o dono a acreditar que o aparelho esteja desligado quando na verdade não está. No modo Fake-Off, a TV trabalha como grampo, gravando conversas na sala e mandando-as através da internet para um servidor clandestino da CIA”.

O material lista supostas ferramentas para invadir aparelhos muito populares como o iPhone da Apple ou os smartphones Android, cujo sistema operacional é fabricado pela Google. Mas há diferenças marcantes das revelações de 2013 feitas pelo ex-prestador de serviços da Agência de Segurança Nacional (NSA) Edward Snowden.

Os documentos de Snowden descrevem mais a vigilância em massa de sistemas de comunicação com base na internet que os aparelhos individuais, que parecem ter sido o foco da CIA. Atacando esses aparelhos, a CIA pode ter acesso até a comunicações criptografadas em aplicativos populares como Signal e WhatsApp, sem precisar quebrar a própria criptografia. As informações do WikiLeaks parecem assinalar essa diferença ao dizer que a CIA “contornou” as tecnologias de criptografia.

Especialistas em privacidade avaliam que a CIA pode ter sido forçada a se concentrar em aparelhos vulneráveis, pois a internet, como um todo, se tornou mais segura por meio de avanços em criptografia. “A ideia de que a CIA e a NSA podem invadir aparelhos é velha”, disse Mathew Green, especialista em criptografia da Johns Hopkins.

As revelações de Snowden e a reação a elas fizeram de uma criptografia mais forte uma grande e bem financiada causa, tanto para defensores da privacidade quanto para empresas de tecnologia, que têm a capacidade técnica e verbas para proteger o fluxo mundial de dados.

Google, Microsoft, Facebook, Yahoo e outras anunciaram grandes iniciativas, em parte para proteger suas marcas de acusações de usuários de que tornaram muito fácil para a NSA coletar informações de seus sistemas. Enquanto isso, muitos sites começaram a criptografar seus fluxos de dados para os usuários visando a prevenir espionagem. 

As revelações do WikiLeaks servem como lembrete de que, seja qual for a reação política às revelações sobre espionagem digital, ela não vai parar – provavelmente, continuará a crescer. O foco posto em hackear aparelhos individuais – mais que nas mensagens circulando entre eles – deve aumentar a pressão sobre as empresas para tornar esses aparelhos mais seguros. Isso porque, como os especialistas dizem há muito tempo, esses aparelhos são o alvo mais vulnerável numa longa cadeia de interações digitais. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ E TEREZINHA MARTINO

OS AUTORES SÃO JORNALISTAS

 

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