Esqueceram do Afeganistão?

O debate eleitoral americano está ignorando a guerra, sinal de como ela não é central para os interesses dos EUA

É CIENTISTA POLÍTICO, PROFESSOR DE HARVARD, STEPHEN , WALT, FOREIGN POLICY, É CIENTISTA POLÍTICO, PROFESSOR DE HARVARD, STEPHEN , WALT, FOREIGN POLICY, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2012 | 03h04

Lembra-se da guerra do Afeganistão? Você sabe: a "guerra justa" travada em resposta aos ataques de 11 de Setembro pela Al-Qaeda e à recusa do Taleban de entregar os insurgentes. Aquela que foi justificada, em primeiro lugar, pela necessidade de evitar futuros "refúgios" a terroristas; em segundo, pelo desejo de libertar as mulheres afegãs; em terceiro lugar, pelo imperativo de levar democracia e governança moderna a uma sociedade tribal subdesenvolvida; e por último, como sempre, pela necessidade de preservar a "credibilidade" americana.

Escrevendo no site da New Yorker, o jornalista Dexter Filkins adverte que nossos longos e dispendiosos esforços no Afeganistão provavelmente serão um fracasso. Estamos nos retirando do país, afirma ele, mas há poucas indicações de que deixaremos um Estado afegão funcionando adequadamente.

Filkins observa que nem o presidente democrata Barack Obama nem seu rival republicano, Mitt Romney, têm se manifestado muito sobre a guerra nessa campanha eleitoral - em parte porque, nesse assunto, não existe praticamente nenhuma diferença nas suas respectivas posições. Mas, segundo ele, "você pode apostar que, seja qual for o presidente, ele vai se referir a ela (depois da retirada americana)".

Três pontos a levantar. Primeiro, não é novidade alguém dizer que o projeto afegão é um fracasso, porque o plano de impor um Estado centralizado a partir do exterior estava condenado desde o início. Era possível que uma iniciativa internacional, a partir de 2002, fosse bem sucedida - especialmente se os gênios do governo George W. Bush não tivessem desviado a atenção para invadir o Iraque. O mais provável, contudo, era que ocorresse o oposto.

Muitas pessoas alertaram, durante a invasão e ainda hoje, que essa guerra terminaria em fracasso. Alguns, como nós, opuseram-se à decisão de Obama de promover uma escalada na guerra, em 2009, e insistiram numa desmobilização.

Estratégia. O segundo ponto: mesmo que o pessimismo de Filkins esteja certo, não está claro por que o próximo presidente desejará ou terá de perder parte do seu tempo se preocupando com o Afeganistão. Se o Estado afegão realmente fosse de um interesse estratégico vital, não seria difícil convencer os americanos a investir recursos para permanecer ali. Mas o Afeganistão não é isso: é um país pobre, sem saída para o mar e situado a milhares de quilômetros dos EUA.

A única razão pela qual entramos nessa guerra foi, em primeiro lugar, porque alguns malucos desorientados decidiram se esconder por lá e, consequentemente, tiveram muita sorte em realizar um violento ataque em solo americano. Uma vez que eles fossem dispersados, ou mortos, o Afeganistão voltaria a ser o lugar atrasado sem interesse estratégico que sempre foi.

O povo americano compreende isso, mas Obama teve de implementar uma estratégia para salvar as aparências, primeiro intensificando a guerra, para mais tarde se retirar. Se o próximo presidente - não importa quem seja - for inteligente, passará tanto tempo se preocupando com o Afeganistão quanto Jimmy Carter e Ronald Reagan passaram se preocupando com o Vietnã. Ou seja, nada.

Em terceiro lugar, na verdade, todo esse lamentável episódio deve ser visto como um fracasso colossal do establishment de segurança nacional americano. A futilidade da campanha afegã já era aparente anos atrás e ouvimos muitos depoimentos de soldados que retornaram de lá, diplomatas e pessoal ligado às organizações de ajuda humanitária, afirmando que os esforços, provavelmente, não surtiriam efeito.

Mesmo aqueles que continuaram defendendo a guerra admitiram que o sucesso exigiria uma década ou mais de envolvimento, além de mais centenas de bilhões de dólares de ajuda adicional. Nosso sistema de segurança nacional, entretanto, só conseguiu chegar à conclusão de que devia se retirar depois de promover uma escalada da guerra e desperdiçar mais vidas de soldados e consumir mais algumas centenas de bilhões de dólares.

Idealismo. Expus minha opinião sobre por que é difícil pôr fim a guerras dispendiosas. Hoje, simplesmente afirmo que é ainda mais difícil quando a cultura do establishment de segurança do nosso país recompensa a atitude belicosa e encara aquele que aconselha moderação ou prudência como um idealista covarde. Nada ajuda mais do que avaliações realistas e práticas dos custos e benefícios de medidas alternativas, mesmo quando a advertência já foi feita há muito tempo. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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