Esquecidos, veteranos das Malvinas escolhem o suicídio

Os veteranos argentinos da Guerra das Malvinas - um total de 14.120 - voltaram da guerra derrotados e ignorados pela população, que não queria ouvir suas dramáticas histórias nem tomar conhecimento de suas mutilações físicas. Enterrados nas ilhas, estão os corpos de 265 soldados. O restante do total dos 649 mortos na guerra está no fundo gélido do Atlântico Sul, dentro do cruzador General Belgrano, torpedeado pelo submarino atômico Conqueror."Após o fim da guerra nas ilhas, os veteranos enfrentam há 20 anos uma outra guerra", afirmou ao Grupo Estado o ex-subtenente Jorge Taranto, referindo-se aos problemas psiquiátricos sem resolver. Além disso, há o problema do desemprego, já que ninguém quer contratar um veterano, com medo de que ele "enlouqueça". Do total de veteranos, 60% não têm emprego estável.Outra dificuldade enfrentada pelos veteranos é a falta de assistência psicológica para os traumas da guerra. Do total, 88% nunca tiveram esse tipo de assistência, 39% possuem estresse pós-traumático e 36% têm deficiências físicas. Os veteranos são o grupo social com a maior proporção de suicídios na Argentina. O número dos que se suicidaram já é de 270, superando o de soldados mortos nos combates terrestres. Para complicar, as diversas associações de veteranos vivem em contínua rivalidade e são suspeitas de corrupção. Enquanto que em 1982 o número de veteranos era de 14.120, em 1999 havia passado para 22.200.O mistério da multiplicação explica-se pelo registro falso de milhares de pessoas que nunca estiveram nas Malvinas, mas que se interessam em receber a pensão que o governo concedeu a partir dos anos 90. Taranto, de 44 anos, teve melhor sorte. Conseguiu enfrentar seus fantasmas pessoais, casou-se e comanda o programa Malvinas, a História Verdadeira na Rádio 10, uma das mais populares do país, onde sua hora semanal é a de maior audiência. Taranto transformou seu programa em terapia dos sobreviventes.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.