REUTERS/Noah Berger
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Esquema de espionagem do Yahoo é sem precedentes, dizem especialistas 

A pedido dos serviços de inteligência dos EUA, companhia de tecnologia criou mecanismo que filtrava as mensagens recebidas ou enviadas por seus clientes, até mesmo do Brasil

Cláudia Trevisan CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S. Paulo

05 Outubro 2016 | 05h00

Em um método de espionagem sem precedentes nos Estados Unidos, o Yahoo realizou varreduras indiscriminadas nos e-mails recebidos por seus usuários de acordo com palavras-chave fornecidas pelos serviços de inteligência americanos, que tinham acesso às mensagens consideradas suspeitas, disse reportagem divulgada nesta terça-feira, 4, pela agência Reuters. 

Especialistas ouvidos pelo Estado afirmaram que a prática atingiu milhões de clientes da empresa em todo o mundo, incluindo o Brasil. De acordo com a agência de notícias, o Yahoo desenvolveu no ano passado um programa de busca nas mensagens de seus usuários em resposta a uma determinação sigilosa do governo americano.

“Se a reportagem for precisa, a ordem de vigilância enviada ao Yahoo parece não ter precedente”, disse Patrick Toomey, advogado da American Civil Liberties Union (ACLU), a principal entidade de defesa dos direitos civis nos EUA. “Ela exigia que a empresa conduzisse uma busca geral nos e-mails recebidos por seus clientes para detectar informações específicas buscadas pela NSA (a Agência de Segurança Nacional) e o FBI”, ressaltou. 

Na avaliação de Toomey, a demanda representa um “novo paradigma” de espionagem, no qual os computadores fazem varreduras constantes de comunicações à procura de informações de interesse do governo.

Marc Rotenberg, presidente do Eletronic Privacy Information Center (Epic), observou que não há nenhuma indicação de que a atuação do Yahoo e dos serviços de inteligência tenha sido amparada por decisões judiciais. Em sua avaliação, a prática representa um tipo de espionagem indiscriminado realizado em tempo real, algo que seria inédito nos EUA – pelo menos publicamente. 

Cooperação. “É chocante que a companhia tenha demonstrado tão pouca preocupação com a privacidade de seus usuários”, afirmou Rotenberg, ressaltando que a empresa deveria ter contestado a determinação judicialmente. “O Yahoo parece ser parceiro do governo dos EUA nessa espionagem.”

A reportagem da Reuters teve como base entrevistas com três ex-funcionários da companhia e uma quarta pessoa familiarizada com o caso. Procurada pelo Estado, a assessoria de imprensa do Yahoo não desmentiu nem confirmou as informações e repetiu a declaração que havia dado à agência de notícias: “O Yahoo é uma companhia que cumpre a lei e obedece às leis dos EUA”. 

A aparente cooperação do Yahoo com os serviços de inteligência também foi apontada como algo sem precedentes por Drew Mitnick, advogado da Access Now, entidade de defesa dos direitos de usuários da internet. “Tudo indica que se trata de uma coleta de dados bastante invasiva”, observou. “A extensão da participação da empresa também distingue esse episódio do que ocorreu no passado.”

Segundo os especialistas, é difícil saber se outras companhias de tecnologia receberam a mesma determinação e colaboraram com o governo. Mas eles consideram pouco provável que o Yahoo seja um caso isolado. Na noite de ontem, Google e Facebook negaram ter recebido a solicitação. 

A reportagem da Reuters disse que o cumprimento da demanda das agências de informação dos EUA teria sido determinado pela executiva-chefe do Yahoo, Marissa Mayer. A decisão teria provocado desconforto entre alguns executivos e levado à saída da empresa de Alex Stamos, que dirigia a área de segurança de informação – atualmente ele desempenha função semelhante no Facebook.

O caso reacende o debate sobre privacidade, segurança nacional e tecnologia desencadeado pelas revelações de Edward Snowden, em 2013. Naquele ano, o ex-prestador de serviços da NSA divulgou uma série de documentos que mostravam a amplitude a atuação das agências de espionagem americanas. Entre as pessoas que tiveram suas comunicações monitoradas estava a ex-presidente Dilma Rousseff.

“O episódio é um exemplo de como as demandas de vigilância do governo se ampliaram e como ele tenta usar a tecnologia para buscas amplas que não seriam possíveis no passado”, disse Toomey.

Na semana passada, o Yahoo revelou que dados de 500 milhões de seus clientes haviam sido roubados em um ataque realizado em 2014, em um dos maiores vazamentos de informações já sofridos por uma empresa de tecnologia.

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