Doug Mills/The New York Times
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Esquenta o namoro de Trump com a Fox News 

Casa Branca deve contratar ex-diretor de rede conservadora, que tem ganho audiência e receita

Michael M. Grynbaum / The New York Times , O Estado de S.Paulo

03 Julho 2018 | 05h00

Em 2011, a Fox News anunciou que um novo convidado apareceria semanalmente em Fox & Friends, seu espetáculo matinal. “Corajoso, ousado e jamais tímido”, declarou um anúncio da rede. “O Donald agora fala alto e em bom som, toda segunda-feira na Fox.” Foi o começo de uma linda amizade.

Sete anos depois, a simbiose entre Donald Trump e sua rede a cabo favorita só se aprofundou. A Fox News, cujos comentaristas defendem resolutamente as prioridades do presidente, aumentou a audiência e a receita. Trump vê a rede como um espaço conveniente e seguro, onde ele pode se expressar com poucas críticas de anfitriões ansiosos para agradar.

Agora, a linha que separa os estúdios da rede e a Casa Branca de Trump está cada vez mais desfocada. Bill Shine, um ex-copresidente da Fox News que ajudou a criar o estilo e a programação conservadora do canal, deve ser contratado como novo vice-chefe de gabinete do presidente, supervisionando as comunicações.

Ele foi recomendado a Trump por um amigo em comum: Sean Hannity, astro da Fox News que se tornou confidente do presidente e promotor da mensagem do governo para sua audiência média de quase 3,4 milhões de telespectadores, a maior em notícias de TV a cabo. Ela ocupa esta posição há 16 anos e 5 meses. Tal desempenho garante ao império de Rupert Murdoch US$ 1 bilhão por ano em publicidade.

Os presidentes há muito tempo cultivam seus influenciadores nos meios de comunicação. Mas a ligação entre Trump e a Fox vai além da amizade e bajulação, chegando à defesa total. O presidente é o beneficiário de um bloco sustentado de três horas de opiniões de especialistas políticos agressivos no horário nobre, o que ampliou suas alegações infundadas e deu lastro a seus ataques aos meios de comunicações como o “inimigo do povo americano”.

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Comentaristas como Hannity tanto repetem suas palavras como ajudam a moldar as narrativas do presidente. No caso de Hannity, ele denunciou a investigação feita pelo procurador especial Robert Mueller como parte de uma conspiração de “Estado dentro do Estado”. Laura Ingraham descreveu recentemente as instalações que mantêm crianças separadas de seus pais migrantes, essencialmente como “acampamentos de verão”. Os pontos de conversa de Fox & Friends são elementos básicos que alimentam o Twitter do presidente.

O grito de “notícias falsas” no horário nobre, em particular, levou alguns jornalistas veteranos da redação da Fox a criticar publicamente seus companheiros: Chris Wallace, apresentador do Fox News Sunday, recentemente criticou os comentaristas de sua rede por “atacar os meios de comunicação”, considerando isso “falta de educação”. Mas os ataques aparentemente agradaram ao presidente, que até domingo concedeu 23 entrevistas à Fox News e à Fox Business Network – cerca de dois terços de suas entrevistas – desde o dia da posse. Desde sua posse, o presidente tuitou sobre a Fox News ou sobre a Fox Business mais de 220 vezes.

A cumplicidade irritou os críticos que rotulam a Fox News de “TV estatal”, um apelido lançado por ícones da TV como Jeff Zucker, da CNN, e Andrew Lack, da NBC, que os executivos da Fox News rejeitam enfaticamente.

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Vários ex-funcionários da Fox News disseram que não se lembravam de o canal ter apoiado com tanto empenho a agenda de um presidente em exercício. “É justo dizer que há um relacionamento que foi forjado”, disse Eric Bolling, um ex-coapresentador de The Five que deixou a Fox News no ano passado.

Popularidade. A tendência da Fox News em direção a Trump chega no momento em que o presidente desfruta de alguns de seus maiores índices de aprovação desde a posse. 

A preferência de Trump pelos analistas da Fox News também representa menos oportunidades de que ele seja questionado por jornalistas que não compartilham sua ideologia – incluindo repórteres da Fox News. O principal âncora político da rede, Bret Baier, foi silenciado por quase 18 meses antes que Trump concordasse em se sentar com ele.

Ken LaCorte, que era vice-presidente sênior da Fox News Digital antes de sair em novembro de 2016, disse que Trump recebeu cobertura mais favorável na rede “depois que ele se tornou o candidato republicano”. 

“Eu vejo mais notícias que são tendenciosas para republicanos do que eu jamais tive”, disse LaCorte, que também criticou a CNN e a MSNBC, que ele ridicularizou como “resistência” dos analistas anti-Trump. 

Houve uma época em que os comentaristas da Fox News estavam mais dispostos a criticar Trump. Em julho de 2015, Trump, então candidato a candidato, ridicularizou o cativeiro do senador John McCain no Vietnã. “Se Eric Holder tivesse dito isso estaríamos exigindo renúncias e investigações, e é por isso que precisamos manter Trump nos mesmos padrões”, disse Greg Gutfeld, coapresentador de The Five.

Roger E. Ailes, o último presidente do canal, disse que foi “perturbador” depois que Trump ter sugerido que Megyn Kelly fez perguntas duras durante um debate na primeira temporada porque ela estava menstruada. E Bill O'Reilly, ainda como o principal âncora da Fox News, contestou Trump por suas simpatias por Vladimir Putin.

Desde então, Kelly saiu da Fox News para a NBC, e O'Reilly foi demitido depois de um escândalo de assédio sexual. Eles foram substituídos no horário nobre por Ingraham e Carlson, que frequentemente atraem audiências maiores do que seus predecessores.

Ralph Peters, tenente-coronel aposentado do Exército dos Estados Unidos com experiência em relações EUA-Rússia, recentemente deixou seu emprego como analista da Fox News, chamando a rede de “máquina de propaganda”. Em uma entrevista, ele disse que durante seus últimos meses na rede, “pediram-me cada vez com menor frequência que falasse sobre qualquer coisa que tocasse Trump e a Rússia”.

“Ninguém na Fox jamais tentou colocar palavras na minha boca”, disse Peters. “Ninguém nunca disse: ‘Você não pode dizer isso'. Eles simplesmente não me pediram para participar desses segmentos. Não há uma cabala escura e profunda. As organizações, seja o New York Times ou a Fox News, desenvolvem um senso coletivo do que os chefes querem, em que direção a organização deve ir.”

Quando lhe perguntaram se ele considerava a Fox News uma “TV estatal”, Peters disse que isso era um exagero. “Eles não são controlados pelo Estado”, disse ele. “A Fox é influenciada por uma administração.” (A rede disse que Peters “tem direito às suas opiniões apesar do fato de que ele escolheu usá-las como arma para ganhar atenção”).

A provável mudança de Shine para a Casa Branca não surpreendeu os veteranos da rede. Nascido em Long Island e filho de um policial da cidade de Nova York, Shine ajudou a projetar a programação da Fox News por duas décadas. Profundamente leal a Ailes, ele foi forçado a sair da rede em maio passado por sua condução dos casos de escândalos de assédio sexual. Ele e Hannity são próximos, muitas vezes viajando juntos com suas famílias.

"Ele tem uma estranha maneira estranha de dizer “não” a você pela qual onde você não se sente mal em dizer “não”, disse Bolling, que agora é apresentador da conservadora rede de transmissão CRTV. “Se ele puder dizer ao presidente ‘não’ quando ele precisar ouvir um ‘não’, isso é fantástico".

Peters chamou Shine de “uma escolha brilhante” para a Casa Branca. “Ele não passa o dia todo lendo Milton e Dryden, mas é muito perspicaz”, disse ele.

Ted Koppel, ex-âncora de  Nightline, disse que o relacionamento de Trump com a Fox News era "claramente um tanto quanto diferente" da interação entre organizações de mídia e presidentes anteriores.

Mas ele também pressionou por alguma perspectiva, observando que a CNN e outras redes de cabo dedicaram centenas de horas de transmissão a comícios de Trump durante a campanha de 2016.

“Não havia muitos de nossos colegas que se cobriram de glória naquela época”, disse Koppel. “Eles estavam tão felizes em continuar seu trabalho." / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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