Esquerda chilena atrai radicais; com pouca opção, direita busca moderados

A expressiva vitória da socialista Michelle Bachelet, que no domingo obteve 46,67% dos votos, ante 25,01% da conservadora Evelyn Matthei, definirá a estratégia das campanhas para o embate final pela presidência do Chile, dia 15. Restou à coalizão de direita buscar apoio do centro e de quem ficou em casa - somente metade dos 13 milhões de eleitores registrados votou. O bloco socialista quer atrair a extrema esquerda.

RODRIGO CAVALHEIRO, ENVIADO ESPECIAL / SANTIAGO, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2013 | 02h09

As duas missões, segundo analistas, são complexas. Bachelet sofre rejeição de movimentos sociais que consideraram seu primeiro governo, de 2006 a 2010, próximo dos empresários. Representante do bloco conservador, Matthei, que celebrou o segundo turno como uma vitória, ficou sem alternativas logo após o resultado.

O terceiro colocado, Marco Enríquez-Ominami (10,98%)- cineasta filho de um guerrilheiro morto pela ditadura -, desejou sorte "à futura presidente Bachelet", a quem normalmente ataca. O candidato independente Franco Parisi (10,11%) rejeitou proposta de aproximação da campanha de Matthei. "Bachelet é uma dama da política. A senhora Matthei não merece governar o Chile porque é uma pessoa má", afirmou. Diante dos apoios implícitos, Bachelet não precisaria amenizar seu programa, pelo contrário.

"Os socialistas precisarão de uma campanha mais agressiva, colocar o projeto mais à esquerda. É de onde podem tirar votos", disse ao Estado o analista político Cristóbal Animat, diretor na consultoria Congress Watch. "A direita fez bem em radicalizar o discurso para garantir o voto 'duro' e passar do primeiro turno. Agora, para alcançar uns 40% e conseguir uma derrota honrosa, tem de se moderar para atrair o centro", completa Animat.

Matthei deu sinais de seguir esse caminho, ao dizer ontem que buscaria votos de todos, "até os de Bachelet". Em campanha, ela acusou socialistas de defender criminosos e tachou a Justiça de esquerdista. Também disse querer apoio de "quem levanta cedo para trabalhar, não de quem faz protestos".

Reformas. Três propostas radicais de Bachelet foram até agora o centro da divergência entre os blocos. A ex-presidente quer um sistema de educação universal e gratuito, uma reforma tributária para bancar a mudança no ensino e a troca da Constituição, para permitir a reeleição. "Ganhamos maioria nas duas Casas. Os chilenos querem mudar, querem um país sem letras miúdas", disse ela ontem.

Embora seu grupo tenha avançado no Congresso, a socialista não tem como aprovar mudanças na educação e na Constituição com a base conquistada. "A (reforma) tributária é fácil de fazer. A educacional é difícil, porque ela precisa convencer os democratas-cristãos, seus aliados mais conservadores, a aceitá-la", disse Patricio Navia, analista chileno da Universidade de Nova York. "Uma mudança constitucional só (é possível) sobre alguns pontos que a direita aceite. Ela nunca conseguirá uma nova Constituição."

Durante a votação, 10% dos eleitores marcaram na cédula - os chilenos se orgulham da votação manual - as letras AC, de Assembleia Constituinte, consulta permitida. Matthei compara a tentativa de trocar a Carta - idealizada por Augusto Pinochet e emendada em 2005 - à iniciativa de países como Bolívia e Venezuela e argumenta que isso pode comprometer a bonança econômica. O país tem 5 % de desemprego e 4,5% de crescimento no PIB este ano, segundo o governo.

A oposição entre conceitos de direita e esquerda dominou a eleição, 40 anos após o golpe que derrubou Salvador Allende. A presença de Matthei e Bachelet no segundo turno deve reforçar o antagonismo. Embora elas nunca tenham sido amigas na infância, seus pais, generais, cultivaram forte amizade antes do golpe - as famílias moraram em uma base no norte do Chile, nos anos 60. O pai de Bachelet, Alberto, morreu do coração em 1974 após ser preso e torturado. O de Matthei, Fernando, foi da junta militar de Pinochet e comandou a Força Aérea. Tem 88 anos e vive em Santiago.

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