Esquerda do PC chinês apoia líder expulso

Carta favorável a Bo Xilai não deve sensibilizar cúpula, mas mostra divisão a 15 dias de transição

CLÁUDIA TREVISAN, CORRESPONDENTE / PEQUIM, O Estado de S.Paulo

23 de outubro de 2012 | 03h07

Representantes da ala esquerdista do Partido Comunista da China divulgaram ontem uma carta aberta na qual pedem ao Congresso Nacional do Povo que não casse o mandato do ex-dirigente de Chongqing Bo Xilai. A decisão deve ser tomada entre hoje e sexta e abrirá caminho para o julgamento criminal de Bo, já que membros do Parlamento chinês têm imunidade.

Assinado por cerca de 300 acadêmicos, ex-funcionários públicos e integrantes de órgãos legislativos locais, o texto foi veiculado no site China Vermelha, que está bloqueado no país. Os simpatizantes de Bo afirmam que as acusações contra ele têm motivações políticas e falhas do ponto de vista legal. "Qual é a razão para a expulsão de Bo Xilai? Por favor, investiguem os fatos e as provas", diz a carta.

O grupo é minoritário no Partido Comunista e é pouco provável que sua posição tenha influência na definição do destino do ex-chefe de Chongqing. Mas a divulgação do texto expõe divisões internas do Partido Comunista a pouco mais de duas semanas do início do congresso que vai chancelar a transição de poder para a futura geração de líderes chineses.

Antes de cair em desgraça, em fevereiro, Bo era forte candidato a ocupar uma das cadeiras da entidade máxima de comando do partido, o Comitê Permanente do Politburo. O organismo tem nove integrantes, mas o número pode ser reduzido para sete no encontro que começa dia 8 de novembro e deve durar uma semana.

A ascensão de Bo foi interrompida depois que seu ex-braço direito Wang Lijun se refugiou no Consulado dos EUA em Chengdu. Ex-chefe de Segurança Pública de Chongqing, Wang apresentou provas que envolveram a mulher de Bo, Gu Kailai, no assassinato do empresário britânico Neil Heywood, em novembro.

Gu foi condenada em agosto à pena de morte, com suspensão de dois anos. Depois desse período, a condenação deve ser comutada para prisão perpétua. Acusado de acobertar o caso, Wang foi sentenciado a 15 anos de prisão.

Bo não é visto em público desde março, quando foi afastado do governo de Chongqing e do Politburo - o grupo de 25 pessoas que é o segundo organismo na hierarquia de comando chinesa. Bo foi expulso do partido no dia 28 e seu caso foi encaminhado às autoridades judiciais, que vão julgá-lo sob acusação de corrupção e abuso de poder.

Investigação da comissão disciplinar do partido indicou que Bo recebeu "propinas massivas" de maneira direta ou por meio de integrantes de sua família e manteve relações sexuais "impróprias" com várias mulheres.

"Por favor, revelem à população evidências de que Bo Xilai será capaz de se defender nos termos da lei", ressaltaram os signatários da carta.

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