EFE/ Javier Lizón /J.J. Guillén
EFE/ Javier Lizón /J.J. Guillén

Esquerda espanhola reúne votos para derrubar premiê conservador

Parlamento decide se derruba Rajoy do governo na Espanha; votação nessa sexta-feira de uma moção de censura proposta pelo Partido Socialista pode levar Pedro Sanchez, duas vezes derrotado pelo conservador, à chefia do governo

Andrei Netto, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

31 Maio 2018 | 18h45

Após seis anos e cinco meses no poder, em uma gestão marcada pela recuperação econômica, mas também por escândalos de corrupção, o primeiro-ministro da Espanha, Mariano Rajoy, de 63 anos, enfrenta nesta sexta-feira, 1º, uma sessão em que a oposição tem votos suficientes para derrubá-lo. O líder do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), Pedro Sánchez, tem chances de se tornar o novo premiê. 

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A substituição na chefia do governo tornou-se provável com a adesão, nesta quinta-feira,31, dos independentistas bascos. No primeiro dia dos debates parlamentares sobre a moção de censura, os líderes partidários se confrontaram com Rajoy, na tentativa de convencer os últimos indecisos no Legislativo. Em seus pronunciamentos, Sánchez justificou a moção de censura pedida por ele em razão dos casos de corrupção que abalam o governo do atual primeiro-ministro. 

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Na semana passada, o Partido Popular (conservador) foi julgado pela Audiência Nacional, espécie de STF espanhol. A corte condenou a legenda e 29 dos membros de sua cúpula a penas que, somadas, chegam a 351 anos de prisão. O chamado Caso Gürtel envolveu escândalos de corrupção, fraudes, lavagem de dinheiro, tráfico de influência e desvio de verbas públicas. Segundo os documentos apreendidos com o ex-tesoureiro do PP, Luis Bárcenas, o partido havia montado uma espécie de “mensalão”, no qual altos dirigentes da legenda recebiam recursos de empreiteiras que conseguiam contratos por obras públicas.

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A condenação do partido, inédita na Justiça espanhola, motivou a ação de Sánchez para derrubar Rajoy e tentar assumir o poder até eleições antecipadas, ainda sem data marcada. Já o primeiro-ministro alega que a moção de censura joga a Espanha na instabilidade política. “Não se pode obrigar um país a eleger entre democracia e estabilidade, pois não há maior instabilidade do que a que emana da corrupção”, afirmou Sánchez em um de seus pronunciamentos aos deputados. “Não permitam que a democracia perca essa oportunidade”, exortou. “A hora é agora. A decisão que devem tomar só admite dois caminhos: sim ou não.”

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Rajoy respondeu que a moção do PSOE é um “exercício de oportunismo a serviço de uma ambição pessoal” – de Sánchez. “O senhor Sánchez quer governar sem passar pelas urnas, porque sabe que nas urnas nunca ganhará”, acusou o premiê, que bateu o líder socialista duas vezes em eleições anteriores. 

O líder socialista ainda tem a missão de garantir até a sessão do Parlamento desta sexta-feira um total de 176 votos dos 350 deputados – a maioria simples. O desafio não é simples, pois o PSOE teve em 2016 seu pior desempenho em campanhas eleitorais desde a redemocratização, em 1977, elegendo apenas 84 deputados. Sánchez tem o apoio de seu principal rival à esquerda, o Podemos (esquerda radical), e também de partidos independentistas catalães, que desejam a queda de Rajoy. 

A recusa da legenda centrista Ciudadanos em apoiar o PSOE complica a equação. Até a quinta-feira, 31, a decisão estava nas mãos do Partido Nacionalista Basco (PNV), de raízes independentistas, cujo líder, Aitor Steban, demonstrava indecisão. A dúvida foi levantada durante a sessão de quinta-feira, 31. “Nosso voto negativo (à moção) não garantirá a estabilidade”, argumentou Steban, manifestando apoio a Sánchez. “Acreditamos que respondemos ao que os cidadãos bascos reclamam majoritariamente votando sim.”

Com as promessas de votos do PSOE, Podemos, PNV e catalães no Parlamento, Rajoy vive uma encruzilhada, mas ainda tem uma alternativa: anunciar sua demissão do cargo, fixando a data de eleições antecipadas. A estratégia lhe permitiria seguir comandando os assuntos do governo até a votação, na tentativa de retomar o apoio popular que o PP vem perdendo nos últimos meses em proveito do líder do Ciudadanos, Albert Rivera – hoje o número 1 das pesquisas.

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Se Rajoy não renunciar, Sánchez deve vencer o voto de censura, derrubar o governo e assumir o poder. Ele teria, então, três alternativas: compor um governo de coalizão com os partidos que apoiarão sua iniciativa, governar com minoria no Parlamento – o que na prática lhe impediria de aprovar reformas controvertidas – ou fixar novas eleições, antecipando a data prevista, de junho de 2020.

Até a noite de quinta-feira, 31, a Espanha vivia o suspense em torno do tempo de vida de Rajoy como primeiro-ministro. O que parecia certo, é que seus dias estão contados.

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