Esquerda europeia perde o rumo

Ausência de propostas para superar crise econômica expõe enfraquecimento do movimento nos países da UE

Andrei Netto, PARIS, O Estadao de S.Paulo

25 de abril de 2009 | 00h00

Às vésperas de eleições gerais na Alemanha e na Grã-Bretanha, e da votação que renovará 736 cadeiras do Parlamento Europeu, em junho, cientistas políticos questionam qual é o maior problema: a crise do capitalismo ou a dos partidos de esquerda do continente?Cientistas políticos consultados pelo Estado compartilham o diagnóstico: exceção feita à Espanha, os partidos progressistas não oferecem ao eleitorado ideias concretas para superar a turbulência e a direita.A França é um exemplo da situação da esquerda europeia. O governo do presidente Nicolas Sarkozy, um líder impopular e representante da direita clássica, se mostra desconectado dos interesses da população. Já no Partido Socialista francês (PS), maior agremiação à esquerda, não há líder algum.No PS, nomes como Ségolène Royal, ex-candidata à presidência, Bertrand Delanoe, prefeito de Paris, e Martine Aubri, atual secretária-geral, trocam farpas pela imprensa.Para Florence Johsua, cientista política do Instituto de Relações Políticas de Paris, a disputa se dá em torno de egos e não de ideias. "As divergências começaram com a derrota de abril de 2002 para Jean-Marie Le Pen e a extrema-direita", afirma Florence. "O PS não é visível na cena política francesa atual, mesmo que Sarkozy esteja fragilizado." É na Itália, porém, que a esquerda vive sua situação mais dramática. Parte de seu inferno astral teve início quando o Partido Democrático (PD) - uma fusão de ex-comunistas e sociais-democratas -, decidiu não se aliar aos partidos minoritários mais radicais. O resultado foi a derrota de Valter Veltroni, ex-prefeito de Roma, na disputa de 2008 com o conservador Silvio Berlusconi - coligado com a Liga Norte, um movimento de matizes fascistas -, e a perda de cadeiras no legislativo."Agora, no Parlamento só há o PD como alternativa de esquerda", diz o cientista político italiano Fabio Liberti, pesquisador do Instituto de Relações Internacionais (Iris) de Paris. "Viva a esquerda está, mas ela atravessa um deserto de ideias", explica. Até o fim de janeiro, lembra Liberti, Veltroni era o líder progressista italiano, mas após seu partido sofrer uma forte derrota nas eleições regionais ele perdeu apoio interno. Consequentemente, Veltroni teve de renunciar ao posto. "Hoje o PD vive uma guerra de líderes. O eleitorado sente a falta de sintonia durante a crise e o alto desemprego. Essa conjuntura deveria beneficiar a esquerda."DESAFIO ELEITORALSituação mais indefinida vivem os partidos progressistas na Grã-Bretanha e na Alemanha, que enfrentarão eleições até o início de 2010. Atual líder do Partido Trabalhista, criador da Terceira Via - a esquerda social-liberal, com acento centrista -, o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, precisa de propostas que convençam o eleitorado face à crise que acerta o país em cheio.No poder desde 1997, primeiro com Tony Blair, os trabalhistas adotaram as leis de mercado que fizeram o país florescer durante uma década, mas agora enfrentam um dos piores tombos econômicos da União Europeia. "Os partidos de esquerda parecem não dispor mais de subsídios ideológicos ou programas claros para responder às questões abertas pela crise atual", avalia o cientista político George Jones, especialista da London School of Economics and Political Science (LSE).Pela Constituição, Brown precisará convocar eleições até junho, que serão realizadas até o início de 2010. Para Jones, as chances de Brown frente ao Partido Conservador, liderado por David Cameron, estão atreladas ao desempenho do país diante da crise."Se a economia melhorar e a população sentir efeitos diretos no nível de emprego, então os trabalhistas terão chance. Caso contrário, eles serão culpados pelo fracasso."Situação semelhante enfrentam os sociais-democratas do SPD alemão. Progressistas ocupam postos-chave no governo da chanceler Angela Merkel, líder de direita. Vice-chanceler e ministro das Relações Exteriores, Frank-Walter Steinmeier quer convencer os alemães de que pode fazer mais para retomar à estabilidade."Para a opinião pública, os sociais-democratas colaboraram para a situação atual, já que (o ex-chanceler) Gerhard Schöreder tolerou um nível de liberalismo econômico radical entre 1998 e 2005", critica Ernst Hillebrand, doutor em ciências políticas e um dos diretores do Friedrich Ebert Stiftung (FES), um centro de estudos alemão ligado ao SPD. Nas eleições gerais, previstas para outubro, Steinmeier enfrenta uma tendência cultural história, alerta Hillebrand: "Em tempos de crises , o eleitorado clássico tende a olhar à direita na Alemanha." Nesse caso, a tendência é Merkel sair beneficiada.Em janeiro, o partido da chanceler saiu na frente ao conseguir o número de votos necessários para continuar no poder em Hesse, região central do país. A votação serviu como um teste de como os alemães podem responder nas urnas à crise econômica mundial.ESQUERDA ESCONDIDAFlorence JohsuaInstituto de Relações Políticas de Paris"O Partido Socialista não é visível na cena política francesa atual, mesmo que Sarkozy esteja fragilizado"Fabio LibertiInstituto de Relações Internacionais de Paris"Viva a esquerda está, mas ela atravessa um deserto de ideais. Essa conjuntura deveria beneficiar a esquerda""

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