Natacha Pisarenko/AP
Natacha Pisarenko/AP

Esquerda latina entra em campo em apoio a kirchnerista

Após Lula respaldar em Buenos Aires o candidato de Cristina, Evo empresta popularidade a Scioli em jogo em que cada um fez 8 gols

Rodrigo Cavalheiro, Correspondente, O Estado de S. Paulo

19 Setembro 2015 | 18h38

Com oito gols, marcados na quinta-feira a 2,2 mil quilômetros de casa e sem a ajuda dos 4 mil metros de altitude que costumam desgastar os adversários em La Paz, o presidente Evo Morales fez campanha em uma quadra de futsal pelo candidato kirchnerista à presidência argentina, Daniel Scioli.

O boliviano é o último entre os líderes escalados na esquerda latino-americana para ajudar o escolhido por Cristina Kirchner para disputar o governo na eleição de 25 de outubro. Trata-se de uma tática para compensar uma debilidade do argentino. Pesquisas encomendadas por sua campanha apontam que os eleitores não veem nele um líder. Ao peronista conciliador, falta carisma para entrar no time dos estadistas. “É o ponto a corrigir”, disse um de seus assessores ao Estado.

Na semana passada, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pediu votos durante quatro dias para o “companheiro Scioli”. Em julho, Raúl Castro o recebeu em Cuba. Este mês, o candidato argentino deve ir ao Uruguai ver o presidente Tabaré Vázquez. 

O ex-piloto de lancha, que perdeu o braço direito em um acidente em 1989, criou a imagem de moderado peronista em oito anos à frente da Província de Buenos Aires, que concentra 37% dos eleitores do país. Sua vocação para o diálogo, ou aversão ao choque, era o principal empecilho para representar o kirchnerismo, movimento derivado do peronismo que fez do confronto um pilar. Foi indicado por Cristina porque nenhum kirchnerista puro apresentava seu potencial de captar votos e por ter aceitado Carlos Zannini, um ideólogo do movimento, como vice na chapa.

A votação primária obrigatória disputada em 9 de agosto deu a Scioli, milionário filho do dono de uma cadeia de lojas de eletrodomésticos, afeito ao mundo das celebridades, uma cômoda vantagem sobre os rivais. Ele obteve 39,2% dos votos, enquanto o grupo de seu principal adversário, o conservador Mauricio Macri, prefeito de Buenos Aires, ficou com 30%. Em terceiro lugar, apareceu a coalizão do ex-kirchnerista Sergio Massa, com 20,5%. Para levar a eleição no primeiro turno, Scioli precisa chegar a 45% dos votos válidos ou obter 40%, desde que abra 10 pontos porcentuais sobre o segundo.

Embora o resultado de agosto o tenha colocado perto da disso, pesquisas mostram que desde então ele, como seus rivais, não cresceu. A 40 dias da votação, Scioli busca o voto de moderados, já que os kirchneristas convictos se conformaram em votar nele por orientação de Cristina. Após desprezá-lo por anos, ela agora o leva a todas inaugurações transmitidas em rede nacional. 

“Scioli está matematicamente perto de ganhar e busca agora votos fora do kirchnerismo. Podem ser de peronistas que se opõem ao kirchnerismo, independentes ou indecisos. O voto duro ele já tem”, diz o sociólogo e consultor Ricardo Rouvier.

Para o candidato governista, não ganhar em outubro é correr o risco de levar uma virada. Levantamentos de seu grupo político e de consultorias apontam que é mais provável que ele vença no primeiro turno do que numa segunda votação, em 22 de novembro. Embora os votos da oposição não possam ser somados contra o kirchnerismo, seu favoritismo diminuiria numa disputa em segundo turno.

“A campanha de Scioli está desorientada por várias razões. As inundações em sua província evitaram que sua vitória tivesse o efeito natural de atrair mais votos. Ele enfrenta uma relação tensa com Cristina e denúncias de fraude na eleição da Província de Tucumán. Isso fez com que não tenha obtido mais votos do que conseguiu na primária”, diz o cientista político Carlos de Angelis, da Universidade de Buenos Aires.

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